Imported Article – 2026-03-14 07:02:39

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Compreender como os tumores se desenvolvem e se espalham continua a ser um dos maiores desafios na pesquisa sobre câncer. Cientistas da Universidade de Genebra (UNIGE), em colaboração com o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre Câncer, identificaram um fator surpreendente que pode ajudar a compreender por que alguns tipos de câncer progridem de maneira mais agressiva. Sua pesquisa revela que os neutrófilos, um tipo comum de célula do sistema imunológico, podem ser alterados pelo ambiente do tumor de maneiras que, em vez de combater o câncer, acabam por apoiá-lo.

Uma vez expostos ao ambiente tumoral, essas células imunes começam a produzir uma molécula conhecida como quimioquina CCL3. Em vez de ajudar o corpo a combater doenças, a CCL3 incentiva o crescimento dos tumores. Como esse processo parece ocorrer em diversos tipos de câncer, pode servir como um sinal útil para monitorar a progressão da doença. Os achados foram publicados na revista Cancer Cell.

Crescimento Tumoral em um Ambiente Celular Complexo

O câncer não se desenvolve isoladamente. Os tumores existem dentro de um ambiente altamente interativo composto por diferentes tipos de células, todas influenciando umas às outras. Identificar quais dessas interações realmente impulsionam o crescimento tumoral é um desafio significativo.

“Uma das dificuldades reside em identificar, em um ambiente que estamos apenas começando a compreender, os elementos que realmente influenciam a capacidade do tumor de crescer,” explica Mikaël Pittet, professor titular no Departamento de Patologia e Imunologia e no Centro de Pesquisa Translacional em Onco-Hematologia (CRTOH) da Faculdade de Medicina da UNIGE, membro da Filial de Lausanne do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre Câncer, que liderou este trabalho.

Pittet observa que este estudo se baseia em descobertas anteriores. “Em 2023, mostramos que a expressão de dois genes em macrófagos está fortemente ligada à progressão da doença. Isso constitui uma variável simples, mas informativa para entender os tumores e antecipar sua trajetória. Nosso novo estudo destaca uma segunda variável, desta vez envolvendo outra população de células imunes: os neutrófilos.”

Quando os Neutrófilos Mudam de Defensores para Promotores do Tumor

Os neutrófilos estão entre as células imunes mais abundantes no corpo e geralmente atuam como uma linha de defesa inicial contra infecções e lesões. No entanto, sua presença em casos de câncer frequentemente sinaliza um pior prognóstico.

Os pesquisadores descobriram que os tumores recrutam ativamente neutrófilos e alteram seu comportamento. “Constatamos que os neutrófilos recrutados pelo tumor passam por um reprogramação em sua atividade: eles começam a produzir uma molécula localmente — a quimioquina CCL3 — que promove o crescimento tumoral,” explica Mikaël Pittet.

Essa mudança transforma uma resposta imunológica normalmente protetora em uma que ajuda o câncer a prosperar.

Superando Barreiras Técnicas para Estudar Neutrófilos

Investigar os neutrófilos apresenta grandes obstáculos técnicos, especialmente quando se trata de manipulação genética. “Os neutrófilos são particularmente difíceis de estudar e manipular geneticamente,” explica Evangelia Bolli, co-autora do estudo e responsável pela sua parte experimental, então pós-doutoranda no Departamento de Patologia e Imunologia da Faculdade de Medicina da UNIGE, agora pós-doutoranda no Broad Institute do MIT e Harvard.

Para superar esse desafio, a equipe utilizou várias estratégias experimentais para controlar precisamente o gene da CCL3 em neutrófilos sem afetar outras células. “Combinamos diferentes abordagens para controlar a expressão do gene CCL3 especificamente em neutrófilos, sem inibi-lo em outras células. Um exercício delicado!” ela diz.

Quando a CCL3 foi removida, os neutrófilos deixaram de apoiar o crescimento tumoral. Eles continuaram a funcionar normalmente na corrente sanguínea e ainda foram capazes de se acumular dentro dos tumores, mas a reprogramação prejudicial não ocorreu mais.

Análise de Grandes Dados Confirma um Padrão Comum

Os pesquisadores fortaleceram suas descobertas reanalisando dados de muitos estudos independentes. Detectar neutrófilos nesses conjuntos de dados exigiu novos métodos analíticos.

“Tivemos que inovar para detectar os neutrófilos com mais precisão,” explica Pratyaksha Wirapati, co-primeiro autor e especialista em bioinformática. “A baixa atividade genética muitas vezes os torna invisíveis utilizando ferramentas de análise padrão. Ao desenvolver um novo método, conseguimos mostrar que, em muitos cânceres, essas células compartilham uma trajetória comum: produzem grandes quantidades de CCL3, o que está associado à atividade pró-tumoral.”

CCL3 como um Possível Indicador da Progressão Tumoral

Ao identificar a CCL3 como um motor-chave do crescimento tumoral mediado por neutrófilos, a equipe de pesquisa revelou uma nova variável promissora para compreender como os cânceres evoluem.

“Estamos decifrando o ‘documento de identidade’ dos tumores, identificando, um por um, as variáveis-chave que determinam a evolução da doença,” explica Pittet. “Nosso trabalho sugere que há um número limitado dessas variáveis. Uma vez que sejam corretamente identificadas, elas poderiam ajudar a personalizar melhor o tratamento de cada paciente e, em última instância, oferecer cuidados mais eficazes e personalizados.”

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