Redcatpig: O Sotaque dos Açores e o Espírito de CR7 para Dominar os Videojogos
Não foi meramente um acaso, mas também não era um plano tão bem definido. A partir de 2017 começou a se conceber a ideia de criar jogos a partir de uma pequena aldeia em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Açores, mas as condições ideais só apareceriam em 2019, com a fundação do estúdio. Atualmente, o Redcatpig conta com mais de 40 colaboradores distribuídos em oito países e três continentes, contribuindo para reduzir a “fuga de cérebros”, trazendo de volta portugueses que foram em busca de novas oportunidades e atraindo também talento estrangeiro.
Marco Bettencourt “rebobinou a fita” para recordar o início do Redcatpig, as dificuldades enfrentadas e como o apoio do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), juntamente com o eGames Lab, ajudou a colocar Portugal no mapa e a acelerar o ecossistema. Em entrevista ao TEK Notícias, ele explica como o estúdio reestruturou seus negócios, adotando uma “mentalidade à Cristiano Ronaldo”, de perseverança e esforço contínuo.
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O objetivo inicial sempre foi criar jogos próprios, e isso foi o que motivou Marco Bettencourt (CEO), João Toste (Diretor de arte) e Bryan Freitas (Diretor técnico) a fundar o Redcatpig. O projeto foi bem lançado com KEO, um jogo de combate com veículos, que rapidamente conquistou fãs e notoriedade. O lançamento em acesso antecipado na Steam alcançou 2 milhões de downloads em menos de três dias e recebeu o prêmio PlayStation Talents Portugal em 2019, mas o crescimento da empresa também se deve ao negócio de co-desenvolvimento com alguns dos maiores estúdios do mundo, contando ainda com o selo de desenvolvedor certificado pelas Big 3 (Nintendo, PlayStation e Xbox).
Veja na galeria as imagens do KEO
A história dos primeiros dias já havia sido compartilhada com o TEK, mas a trajetória continuou com Hovershock, um jogo intenso de combate com hovercrafts, e a empresa também diversificou, envolvendo-se em trabalhos menos visíveis com estúdios internacionais, contribuindo nos bastidores do desenvolvimento de grandes títulos.
O co-desenvolvimento: uma opção estratégica
Em entrevista ao TEK Notícias, Marco Bettencourt menciona que “não tinha uma grande inclinação para o co-desenvolvimento”, porém reconhece que, do ponto de vista do negócio, essa é uma estratégia bastante atrativa, pois permite que a equipe trabalhe em vários projetos simultaneamente. “Estamos exportando tecnologia dos Açores para o mundo”, afirma.
Uma parte considerável da receita do Redcatpig procede de co-desenvolvimento com outros estúdios, para os quais oferece serviços, embora não tenha divulgado detalhes financeiros. “Esse faturamento tem se mantido estável nos últimos três anos, com um crescimento que varia entre 5 a 10%”, menciona. No entanto, ele enfatiza que não pretende abrir mão do desenvolvimento de jogos próprios.
“Continuamos a trabalhar em IPs nossos, como KEO e Hovershock, e temos a chance de colaborar com outros estúdios em projetos incríveis”, justifica o CEO da Redcatpig.
“Utilizamos novos jogos como vitrine e campo de testes para as tecnologias”, acrescenta Marco Bettencourt, reconhecendo que foi graças a esses jogos que o estúdio pôde demonstrar suas capacidades e contribuir para o avanço de outros projetos.
Essa mentalidade de buscar resultados, que ele compara à “mentalidade de Cristiano Ronaldo”, é fundamental. “Tivemos que correr atrás, foi um caminho árduo”, recorda, mencionando que, quando decidiram participar do Web Summit para apresentar o novo jogo, sequer tinham um computador portátil onde o título funcionasse. Contudo, ele ressalta que necessidades impulsionam a criatividade e “tivemos que nos destacar de alguma forma”, o que ajudou a alcançar um posicionamento diferenciado.
O impulso do eGames Lab
A criatividade, dedicação e tecnologia desenvolvidas em Angra do Heroísmo receberam um grande impulso com a mobilização promovida pelo PRR, por meio do consórcio eGames Lab, que envolve 22 entidades e opera em várias regiões, incluindo Madeira, Lisboa, Évora e Açores, voltado para I&D, produção e internacionalização de jogos eletrônicos.
Essa política pública já apresenta resultados, promovendo a colaboração entre empresas e I&D para criar produtos e ampliar a capacidade de exportação, contribuindo significativamente para o reconhecimento de Portugal na indústria de jogos eletrônicos, que está se tornando cada vez mais relevante. “Graças a isso, estamos presentes nos principais eventos internacionais”, enfatiza.
O próprio estúdio também se preparou para um desenvolvimento de I&D mais consolidado, obtendo uma certificação de idoneidade SIFIDE / Selo ID, que posiciona o Redcatpig de forma estratégica no cenário tecnológico português.
O consórcio recebeu um investimento de 30 milhões de euros, dos quais 60% foram alocados em I&D. A reprogramação do projeto aumentou o valor para 45 milhões de euros, com a criação de quatro Gaming Hubs – em Funchal, Lisboa, Terceira/Açores e Évora. Os resultados do eGames Lab são evidentes, com a criação ou alocação de 207 postos de trabalho, sendo 132 novas contratações desde 2022.
Acredito que o PRR acelerou um processo que aconteceria de qualquer forma, mas ao invés de levar dez anos, foi concluído em três”, defende Marco Bettencourt. “Para nós, foi um ganho imensurável, pois nos permitiu recuperar o atraso em relação a outras indústrias”, afirma.
Por isso, ele expressa sua preocupação com o término do PRR, reconhecendo que se o ecossistema assimilar a filosofia de perseverança, também poderá se fortalecer e continuar a investir em tecnologia e desenvolvimento de jogos. “Preparámos a visão e a tecnologia para esse futuro”, assegura, ressaltando a importância de demonstrar ao Governo que são investimentos válidos em uma indústria e nas pessoas que dela fazem parte.
Atraindo talentos para Portugal (e Açores)
A capacidade criada também se reflete no aumento de emprego e na atração de talentos, tanto nacionais quanto internacionais. Enquanto muitos gigantes da indústria de jogos estão reduzindo suas operações e fechando estúdios, o Redcatpig está na contramão, fazendo contratações e pretende alcançar 70 funcionários até 2026.
A localização nos Açores é vista como uma vantagem significativa. “É mais viável trabalhar presencialmente nos Açores do que na metrópole”, explica o CEO, que detalha que um programa de relocalização está em desenvolvimento para facilitar a mudança para a ilha.
O vídeo apresenta uma tour pelo estúdio
Marco Bettencourt destaca os benefícios de viver e trabalhar na ilha, uma das mais belas do arquipélago açoriano, além de as condições criadas na sede do estúdio, o desenvolvimento de soluções habitacionais e os incentivos fiscais que asseguram “um aumento salarial imediato”.
E embora a empresa adote uma abordagem “remote friendly”, ele defende a importância do trabalho presencial em colaboração, especialmente para os novos membros da equipe, que têm muito a aprender e que podem se desenvolver mais rapidamente nesse ambiente.
Perspectivas de desenvolvimento
O CEO do Redcatpig observa o futuro próximo com otimismo, graças às habilidades e à solidez do ecossistema que foi estabelecido em Portugal. “Estamos percebendo estúdios com projetos muito promissores”, comenta, referindo-se à presença de grandes estúdios internacionais em Portugal e ao surgimento de “estúdios independentes realizando trabalhos incríveis”.
A sustentabilidade dos projetos é sempre um desafio, mas a confiança de que um bom trabalho traz resultados para o Redcatpig se mantém firme, que espera ainda este ano alcançar 70 colaboradores. Assim como para o eGames Lab, que agora passa por um processo de consolidação dos hubs e fortalecimento das linhas de cofinanciamento à produção e comercialização, buscando expandir programas de internacionalização e atrair investimentos para transformar o foco em Pesquisa e Desenvolvimento em receitas recorrentes de exportação.
