Falhas nos exames nacionais: ministro libera mais 500 mil euros e sistema definitivo só chegará em 2027

Falhas nos exames nacionais: ministro libera mais 500 mil euros e sistema definitivo só chegará em 2027

Mais de duas semanas após o início das dificuldades na correção digital dos exames nacionais, o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, autorizou o EduQA a investir até 500 mil euros em suporte tecnológico emergencial. Essa decisão foi tomada no mesmo dia em que uma investigação revelou a vulnerabilidade da estrutura da empresa que opera a atual plataforma de avaliação, enquanto se aguarda a implementação, apenas em 2027, do sistema definitivo que substituirá o atual.

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A crise relacionada à avaliação digital dos exames nacionais do ensino secundário em Portugal começou em 25 de junho, quando o EduQA (Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação) reconheceu publicamente os atrasos devido a problemas técnicos na nova plataforma de classificação eletrônica. Desde então, sindicatos como a FNE e o Stop, além do movimento cívico MetaPROF, têm coletado várias queixas de professores avaliadores, que incluem dificuldades de acesso, documentos de continuidade ausentes, imagens ilegíveis e classificações desaparecidas da plataforma.

Motivos para o gasto de 500 mil euros?

De acordo com um despacho assinado por Fernando Alexandre, o EduQA está agora autorizado a realizar despesas até 500 mil euros para reforçar o suporte tecnológico das soluções digitais relacionadas aos exames. Esse montante possibilita ao instituto contratar serviços, adquirir equipamentos e buscar consultoria especializada sempre que necessário. O instituto também pode renovar contratos já existentes e optar por diferentes procedimentos de contratação e os respectivos juristas, devendo, entretanto, reportar mensalmente ao ministro todas as decisões tomadas sob esta autorização.

A decisão é tomada em um momento em que o processo de correção ainda enfrenta pressão. De acordo com dados fornecidos pelo ministro, aproximadamente 95% dos exames já foram entregues aos avaliadores, com 75% das provas já corrigidas. O prazo para finalizar o processo foi estendido até 14 de julho, com a divulgação das notas agora marcada para o dia 17. No entanto, continuam chegando relatos de professores enfrentando cargas de trabalho imprevisíveis, incluindo casos de centenas de novas respostas atribuídas poucos dias antes do prazo e pedidos para corrigir exames de disciplinas que não lecionam.

Duas plataformas, dois desafios diferentes

Uma das dificuldades em comunicar a crise publicamente é a confusão entre dois sistemas informáticos distintos, sendo algo que o próprio ministro reconheceu em uma visita recente a um centro de digitalização de exames. Por um lado, existe a Plataforma de Processamento e Tratamento, desenvolvida internamente pelo EduQA, que é responsável por receber arquivos digitalizados e distribuí-los entre os professores. Este tem sido o sistema onde surgiram os erros de programação mais evidentes, com folhas de continuidade cortadas e itens distribuídos de forma incorreta.

Foi também nessa plataforma que a consultoria Deloitte, chamada às pressas para fornecer assistência técnica, identificou uma falha de segurança que levou à suspensão temporária do sistema. Por outro lado, existe a Plataforma de Classificação e Supervisão (conhecida como PCS), onde os professores efetivamente realizam a correção das provas, e que inclui o SCOI (Sistema de Classificação Online do IAVE), criado internamente em 2016. É esta segunda plataforma que está associada à empresa Blat – Creative Powerhouse.

Sobre a microempresa responsável pela plataforma de classificação

Uma extensa investigação publicada recentemente pelo ECO revelou que a manutenção do SCOI é feita por uma microempresa de Lisboa com apenas 14 funcionários e uma faturação anual inferior a 580 mil euros. A Blat, que surgiu em 2020 como agência de comunicação chamada Antebellum, é associada ao IAVE por meio de apenas dois contratos públicos registrados no portal BASE, totalizando 49.455 euros, um em 2018 e outro em 2023, já com o nome atual.

De acordo com a investigação, além desses dois contratos, não há quaisquer registros públicos de manutenção, suporte técnico ou desenvolvimento contínuo da plataforma, um vazio que contradiz a natureza de um sistema em operação constante. Questionada pelo Expresso, a Blat negou responsabilidade pelos problemas centrais do processo, esclarecendo que sua função se limita a fornecer aos avaliadores os arquivos conforme os recebe.

Em maio de 2026, informações surgiram na dark web sobre um ciberataque que expôs mais de cem registros detalhados de deputados do PSD (nomes, endereços, contatos e perfis de redes sociais), além de contas de e-mail de associações acadêmicas com credenciais encriptadas, e mais de um milhão de linhas de comunicações internas da BLAT com clientes, incluindo conteúdos de mensagens, timestamps, IDs de usuários, anexos e histórico de conversas.

O ataque nunca foi formalmente confirmado pela empresa, pelo PSD ou por qualquer entidade pública nacional. Também não há informações de que a empresa tenha notificado a Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), como exige o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) em casos de violação de dados pessoais.

Destino do investimento: segurança, nuvem e a nova plataforma

A investigação do ECO revela que, ao longo da última década, o IAVE alocou 11,35 milhões de euros em 126 contratos com várias empresas tecnológicas, um ciclo muito mais amplo do que a polêmica em torno da Blat. Entre os principais fornecedores estão a Bravantic Evolving Technology, que é responsável por soluções de segurança de rede, e a Magic Beans, que fornece a infraestrutura de computação em nuvem para as plataformas de exames.

Entretanto, o contrato mais significativo para o futuro do sistema é com a Axians, que pertence ao grupo francês Vinci. Em julho de 2025, esta empresa firmou um contrato de cerca de 1,49 milhões de euros com o IAVE, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), para desenvolver uma nova plataforma de avaliação externa chamada GAEBS. A Axians confirmou ao Público que essa plataforma deverá integrar em um único sistema as inscrições, a organização das provas, a correção, a divulgação de resultados e a certificação dos percursos escolares dos alunos.

Essa nova solução irá substituir várias das ferramentas atualmente em uso, mas há dois pontos importantes a destacar sobre a futura plataforma. Primeiramente, a Axians destacou publicamente que não desenvolveu nem é responsável pela plataforma atualmente em operação. Em segundo lugar, o início das operações do GAEBS está previsto apenas para 2027, o que significa que essa nova plataforma não teve, nem terá, qualquer influência no atual processo de digitalização e classificação dos exames de 2026.

Pressão política e solicitação de investigação

A crise gerou intensa contestação política. A Fenprof já exigiu a saída do ministro da Educação, e o Bloco de Esquerda sugeriu a criação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar quem desenvolve e mantém a plataforma de classificação, com quais contratos e com que financiamento do PRR. Um pedido de debate urgente do Chega sobre o assunto foi recusado pelo presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco.

O Presidente da República também se manifestou sobre a questão, solicitando uma rápida solução para os problemas e enfatizando que alunos e famílias não podem ser afetados pelas falhas. Do lado do Governo, Fernando Alexandre já afirmou, em declarações anteriores, que o processo “não começou bem”, embora tenha minimizado muitos dos relatos mais graves que circulam nas redes sociais. O ministro continua a defender os benefícios do novo modelo de correção digital a longo prazo, incluindo uma maior objetividade na avaliação através da fragmentação da correção por diferentes avaliadores.

Questões ainda precisam de resposta?

No cerne de toda a controvérsia está, principalmente, uma questão de transparência, na qual o Ministério da Educação ainda não esclareceu publicamente quais contratos e valores foram efetivamente pagos à Blat além dos dois registros disponíveis no portal BASE. Também permanece sem resposta como uma empresa tão pequena pode garantir a manutenção de um sistema que, neste ano, teve que processar, pela primeira vez, mais de 300 mil exames originalmente feitos em papel.

Enquanto essa transparência não é alcançada e a solução definitiva da Axians não estiver pronta, o investimento de 500 mil euros autorizado esta semana aparece como uma resposta imediata a um processo que o próprio Governo já admite não ter transcorrido como planejado, mas que promete prosseguir, ao menos, até a conclusão da atual edição dos exames nacionais.

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