rtevora.pt

Onde Évora Acontece

Imported Article – 2026-02-05 04:01:19

Imported Article – 2026-02-05 04:01:19

Um novo estudo realizado no Brasil, recentemente publicado na revista Molecular and Cellular Endocrinology, esclarece como o câncer pancreático adquire a capacidade de se espalhar em um estágio inicial. Os pesquisadores descobriram que uma proteína chamada periostina, juntamente com as células estreladas do pâncreas, desempenha um papel fundamental na invasão das células cancerígenas por nervos próximos. Essa invasão nervosa precoce aumenta o risco de metástase e está intimamente relacionada à agressividade da doença. Os achados também destacam alvos potenciais para tratamentos oncológicos mais precisos e personalizados.

A pesquisa demonstra que os tumores pancreáticos não agem isoladamente. Eles, na verdade, alteram partes do tecido saudável ao redor, reprogramando-o para apoiar a invasão do câncer. Esse processo ajuda a explicar por que o câncer pancreático é tão difícil de controlar uma vez que começa a se disseminar.

Um Câncer Raro com Impacto Letal

A forma mais comum de câncer pancreático é o adenocarcinoma, que se desenvolve nas células glandulares que produzem suco pancreático. Essa variação representa cerca de 90% de todos os diagnósticos de câncer pancreático. Embora não seja um dos cânceres mais frequentemente diagnosticados, é reconhecido por sua agressividade. Sua taxa de mortalidade praticamente iguala a de diagnóstico.

Globalmente, são aproximadamente 510.000 novos casos de câncer pancreático a cada ano, com um número quase igual de mortes registradas anualmente.

No Brasil, estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam cerca de 11.000 novos casos e 13.000 mortes por ano. “É um câncer agressivo e difícil de tratar. Aproximadamente 10% dos pacientes têm chance de sobrevivência a longo prazo, como cinco anos após o diagnóstico”, afirma Pedro Luiz Serrano Uson Junior, oncologista e um dos autores do estudo.

A Importância da Invasão Nervosa

Uma das razões pelas quais o câncer pancreático é tão perigoso é um processo conhecido como invasão perineural. Isso ocorre quando as células cancerígenas se movem para dentro e se espalham ao longo dos nervos. O processo pode causar dor intensa e também facilita que o tumor alcance outras partes do corpo. “A invasão perineural é um indicador da agressividade do câncer”, explica Uson.

Como os nervos conectam diferentes regiões do organismo, as células cancerígenas que entram nessas vias adquirem novas rotas para se expandir.

Desvendando o Sistema de Suporte Oculto do Tumor

A pesquisa foi conduzida no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), parte dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da FAPESP (RIDCs). O estudo foi liderado pelo pesquisador Carlos Alberto de Carvalho Fraga, com Helder Nakaya como investigador principal. Nakaya também é pesquisador sênior no Hospital Israelita Albert Einstein e professor na Escola de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.

Para descobrir como ocorre a invasão nervosa, a equipe utilizou ferramentas avançadas para analisar a atividade de milhares de genes em células individuais enquanto mapeava suas localizações exatas dentro do tecido tumoral. “Conseguimos integrar dados de dezenas de amostras com uma resolução extremamente poderosa”, diz Nakaya.

Os pesquisadores examinaram 24 amostras de câncer pancreático e descobriram que o estroma, o tecido conectivo que suporta o tumor, desempenha um papel ativo na progressão do câncer, ao invés de ser uma estrutura passiva.

O Papel da Periostina e o Remodelamento do Tecido

Um dos achados mais significativos do estudo envolveu as células pancreáticas e as células estreladas que produzem grandes quantidades de periostina. Esta proteína é conhecida por sua capacidade de remodelar a matriz extracelular – a estrutura que organiza e mantém os tecidos saudáveis.

As células tumorais dependem de grandes mudanças nessa matriz para atravessar os tecidos e alcançar os nervos próximos. Esse processo de remodelamento envolve enzimas especializadas e ampla desestruturação do tecido. “A periostina participa desse remodelamento, abrindo o caminho para que as células tumorais invadam”, explica Nakaya. Uma vez que as células cancerígenas atingem um nervo, este pode atuar como uma “estrada” que facilita sua disseminação.

Por que os Tratamentos Têm Dificuldade em Atingir o Tumor

Com as mudanças no ambiente tumoral, ocorre uma reação desplásica. Isso envolve a formação de tecido denso e fibroso ao redor do tumor, composto por células e proteínas que endurecem e inflamam a área. O tecido endurecido dificulta a penetração de medicamentos de quimioterapia e imunoterapia no tumor.

Esse microambiente protetor permite que as células cancerígenas sobrevivam e continuem se espalhando. “É por isso que o câncer pancreático ainda é tão difícil de tratar”, afirma Uson.

Disseminação Precoce Leva a Piores Resultados

De acordo com Uson, a capacidade do tumor de infiltrar o tecido circundante é uma das principais razões para o prognóstico desfavorável enfrentado por muitos pacientes. “A invasão perineural é um sinal de que as células cancerígenas ganharam mobilidade. Elas escapam da massa tumoral, viajam por tecidos saudáveis e alcançam feixes nervosos e linfáticos, que as transportam para outras regiões do corpo, facilitando o desenvolvimento de metástases.”

Mais da metade dos casos de câncer pancreático já apresenta sinais de invasão perineural em um estágio inicial. No entanto, essa disseminação geralmente só é descoberta após a cirurgia. “Infelizmente, descobrimos essa invasão perineural após ela já ter ocorrido. Ela só é vista na amostra cirúrgica ao ser submetida à biópsia”, diz Uson.

Um Alvo Promissor

Diante desses desafios, os pesquisadores acreditam que a periostina representa um alvo promissor para futuros tratamentos. Reduzir sua atividade ou remover as células estreladas que a produzem poderia ajudar a limitar a invasão nervosa e desacelerar a capacidade de disseminação do câncer. “Esse trabalho aponta para caminhos que podem guiar futuras abordagens no tratamento do câncer pancreático”, afirma Nakaya.

Ensaios clínicos em outros tipos de câncer já estão testando anticorpos projetados para bloquear a periostina. Segundo Nakaya, esses esforços podem ajudar a determinar se a mesma abordagem poderia ser eficaz no câncer pancreático.

Uson observa que essa estratégia se alinha com a mudança mais ampla em direção à medicina de precisão. “Se conseguirmos desenvolver anticorpos ou medicamentos que bloqueiem essas células estreladas, teremos ferramentas para impedir que o tumor adquira essa capacidade invasiva tão cedo.” Ele acrescenta que atualmente não existe tratamento especificamente direcionado à invasão perineural e que tais terapias também poderiam beneficiar pacientes com outros cânceres, incluindo câncer de intestino e de mama.

Além de identificar novos alvos terapêuticos, o estudo também ressalta o poder da análise avançada de dados utilizando bases de dados públicas. “Conseguimos fazer e responder novas perguntas que os autores originais não haviam considerado”, diz Nakaya.

O próximo passo, segundo os pesquisadores, é transformar esses insights em tratamentos que atuem antes que a invasão comece. “A medicina de precisão está avançando. No futuro, trataremos pacientes com base em mudanças genômicas e moleculares, e não apenas por tipo de tumor especificamente. Esse é um grande avanço na oncologia”, conclui Uson.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *