Redes Mesh: Desafios e Resiliência Durante o Comboio de Tempestades em Portugal
A passagem das tempestades Kristin e Leonardo provocou uma série de danos em várias regiões de Portugal, deixando muitas infraestruturas críticas destruídas e milhares de cidadãos sem acesso a serviços de telecomunicações. O processo de recuperação tornou-se complicado, e ainda dois meses depois, enfrentamos diversos desafios.
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Atualmente, de acordo com as informações mais recentes nas páginas da MEO, NOS e Vodafone, *as dificuldades concentram-se especialmente na recuperação da rede fixa*. No caso das duas primeiras operadoras, os níveis de disponibilidade variam entre 96% e 97,1%. Por outro lado, na terceira, alguns concelhos dos distritos de Leiria e Santarém ainda apresentam níveis inferiores a 95%.
A tecnologia de redes mesh, utilizando rádio de longo alcance, tem sido utilizada há vários anos em diferentes projetos que promovem sistemas de comunicação descentralizados e de código aberto, como Meshtastic ou MeshCore, com comunidades tanto internacionais quanto em Portugal, além de várias iniciativas em desenvolvimento, como o SIREN(Sistema Independente de Rede de Emergência Nacional).
Em conversa com o TEK NotíCIAS, Miguel Santos, responsável pela implementação do MeshCore em Portugal, declarou que projetos como estes são “a resposta da sociedade civil” e a tecnologia já é, de fato, “uma alternativa para algumas pessoas” em situações de emergência, como demonstraram os casos da comunidade durante a tempestade, permitindo a comunicação entre famílias e outros indivíduos em diferentes áreas.
Nos relatos da comunidade Meshtastic Portugal, também foram registrados usos durante as tempestades, e Joel Conceição, membro da equipe de criadores, comentou que “o caso de Leiria foi o mais significativo”.
Durante a passagem das tempestades, em várias regiões sem sinal de mobile, “a rede mesh local possibilitou a troca de informações cruciais sobre estradas intransitáveis e a situação das ribeiras”.
Tivemos utilizadores operando nós veiculares e domésticos que atuaram como ponte para manter as populações conectadas e reportar danos em tempo real.
Soluções para a instabilidade nas redes convencionais
Joel Conceição enfatizou que a expressão da comunidade em Portugal “se consolidou nos últimos anos como uma resposta direta à fragilidade dos sistemas tradicionais”, sendo o apagão ibérico em abril do ano passado o principal motivador.
“O projeto surgiu para assegurar que mesmo em um cenário de colapso da rede, a capacidade de enviar uma mensagem de socorro ou coordenadas GPS permanecesse intacta“, explicou.
Assim, a comunidade vê o projeto como uma “ferramenta ideal para coordenação local e regional em catástrofes”, permitindo “enviar avisos de perigo e pedidos de ajuda quando as redes móveis estão saturadas ou offline”, funcionando como um “sistema de ‘última instância’ que permanece operante onde a tecnologia convencional falha”.
Redes mesh de rádio como alternativa em emergências? SIREN busca evidenciar a viabilidade.
A iniciativa está em fase de desenvolvimento e utiliza tecnologia mesh de rádio de longo alcance, que vem…
Quanto ao MeshCore Portugal, Miguel Santos relata que antes mesmo do projeto se concretizar, sua experiência como radioamador já o havia envolvido em projetos com foco comunitário.
Apesar de suas primeiras experiências com redes mesh não terem sido bem-sucedidas, há cerca de um ano, ele retomou sua investigação nessa área, buscando solucionar não apenas as limitações no alcance das comunicações via rádio, mas também as fragilidades observadas nas telecomunicações.
O MeshCore chamou sua atenção e, após conversar com Andy Kirby, que fundou o projeto no Reino Unido, e perceber que as condições eram favoráveis, decidiu avançar.
A jornada começou com uma pequena rede em Lisboa e outra em Tomar, e antes mesmo do lançamento oficial, o apagão de 28 de abril funcionou como uma das primeiras provas para a equipe do projeto. “O único meio de comunicação que tivemos entre as pessoas foi este”, ressaltou.
Vantagens e desafios das redes mesh
Embora utilizem tecnologia de rádio de longo alcance (LoRa), nas frequências livres de 868 MHz para o Meshtastic, e de 868 e 433 MHz para o MeshCore, esses sistemas apresentam diferenças marcantes, assim como vantagens e desafios específicos.
Uma das principais distinções está na forma como as mensagens são transmitidas. No sistema Meshtastic, cada dispositivo atua como um repetidor. Quando um nó envia uma mensagem, todos ao seu redor recebem e retransmitem o sinal até que ele alcance seu destino.
No caso do MeshCore, apenas alguns nós funcionam como repetidores, roteando as mensagens através de “caminhos” definidos na rede, em vez de difundir o sinal para todos os dispositivos nas proximidades.
Além das limitações inerentes à tecnologia, como a largura de banda restrita que impede o envio de mensagens de voz ou imagens, há também desafios práticos que afetam sua adoção generalizada.
Os equipamentos necessários para estas redes exigem custos consideráveis de aquisição e instalação, além de requerer conhecimentos técnicos avançados em hardware e software para configurações e usos adequados.
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Apesar dos desafios, esses projetos têm crescido ao longo do tempo, impulsionados tanto por entusiastas quanto por pessoas curiosas que desejam aprender mais sobre redes mesh, reunindo-se em redes sociais e em atividades, tanto online quanto presenciais.
“A nossa comunidade no Telegram e nos canais de coordenação conta atualmente com mais de 1.300 membros ativos”, mencionou Joel Conceição. “O portal meshtastic.pt serve como um ponto de encontro nacional para documentação e planejamento de infraestrutura”, acrescentando que a comunidade possui nós ativos em praticamente todos os distritos do país.
No que diz respeito ao MeshCore Portugal, Miguel Santos estima que a rede conta atualmente com cerca de 300 repetidores, com um total de cerca de 500 usuários. Além de um portal próprio com mais informações sobre documentação, configuração e iniciativas, a comunidade conta com mais de 400 membros no Telegram e mais de 300 no Facebook.
