Cientistas descobrem "triturador molecular" que ajuda parasita mortal a evadir o sistema imunológico

Cientistas descobrem triturador molecular que ajuda parasita mortal a evadir o sistema imunológico

Para sobreviver no fluxo sanguíneo humano, o parasita africano Trypanosoma brucei se reveste com uma camada protetora composta por proteínas chamadas glicoproteínas de superfície variantes (VSG). Um estudo publicado na Nature Microbiology agora identificou uma proteína chave que permite ao parasita controlar com precisão esse “manto” protetor.

Os pesquisadores descobriram que uma proteína recentemente identificada, chamada ESB2, desempenha um papel central nesse processo. Ela atua como um “desintegrador molecular”, permitindo que o parasita permaneça oculto ao destruir partes selecionadas de suas instruções genéticas à medida que estão sendo produzidas.

Compreender esse mecanismo altamente preciso fornece aos cientistas novas perspectivas sobre os pontos vulneráveis no ciclo de vida do parasita. Isso pode eventualmente levar a tratamentos aprimorados para a Doença do Sono, uma enfermidade que ainda impacta significativamente a África subsaariana.

A Doença do Sono é transmitida pela picada da mosca tsetsê. Sem tratamento, o parasita pode invadir o sistema nervoso central, causando sintomas graves, como distúrbios nos padrões de sono, confusão e coma.

“Desintegrador Molecular” Edita Instruções Genéticas em Tempo Real

A Dra. Joana Faria, autora sênior do estudo e líder do grupo de pesquisa na Universidade de York, explicou: “Descobrimos que o segredo do parasita para permanecer invisível não está apenas no que ele produz, mas no que ele escolhe omitir. Ao colocar um ‘desintegrador molecular’ diretamente dentro de sua ‘fábrica de proteínas’, o parasita pode editar seu manual genético em tempo real.”

“Isso sugere uma mudança fundamental em como vemos as infecções: a sobrevivência de muitos organismos pode depender menos de como emitem as instruções genéticas e mais de como as destroem na fonte.”

Desvendando um Mistério de 40 Anos sobre Expressão Gênica

Essa descoberta ajuda a explicar um mistério de longa data na biologia do parasita que intrigou cientistas por décadas. As instruções genéticas que produzem o “manto” protetor do parasita também incluem vários “genes auxiliares” que suportam a sobrevivência e a evasão imunológica. Com base nessa configuração, os cientistas esperavam que o parasita produzisse quantidades semelhantes de cada proteína.

No entanto, o parasita produz grandes quantidades de proteínas do manto enquanto gera apenas pequenas quantidades de proteínas auxiliares. As novas descobertas revelam que esse desequilíbrio não é acidental.

Ao identificar a ESB2, a equipe de pesquisa mostrou que o parasita regula sua produção genética destruindo certas instruções em vez de simplesmente controlar a quantidade que é produzida.

Controle Preciso Dentro do Corpo de Expressão de Site

A ESB2 está localizada dentro do centro de produção de proteínas do parasita, conhecido como Corpo de Expressão de Site. À medida que as instruções genéticas estão sendo processadas, a ESB2 atua como uma “lâmina molecular”, cortando imediatamente as seções dos genes auxiliares, enquanto deixa intactas as instruções relacionadas ao manto.

Essa edição em tempo real garante que o parasita produza exatamente o que precisa para permanecer indetectável pelo sistema imunológico do hospedeiro.

Avanço da Equipe de Pesquisa da Universidade de York

A descoberta representa a primeira grande conquista do novo laboratório da Dra. Faria na Universidade de York e contribui para a crescente reputação da cidade como um centro de pesquisa em ciências da vida.

O projeto foi financiado por uma Bolsa Sir Henry Dale – uma parceria entre a Wellcome Trust e a Royal Society – e reuniu pesquisadores do Reino Unido, Portugal, Países Baixos, Alemanha, Cingapura e Brasil.

Lianne Lansink, primeira autora do estudo, disse: “Quando vimos pela primeira vez o desintegrador molecular localizado ao microscópio, soubemos que tínhamos encontrado algo especial.”

A Dra. Faria acrescentou: “Essa descoberta é um verdadeiro momento de conclusão para mim. O mistério de como este parasita gerencia a expressão assimétrica de seu manual genético tem sido um caso frio na minha mente desde os meus dias como pós-doutoranda. Finalmente solucioná-lo agora, como o primeiro grande resultado do meu próprio laboratório aqui em York, é extremamente gratificante. É um testemunho do que um laboratório novo e um grupo diversificado de cientistas podem alcançar ao olhar para um velho problema de uma perspectiva completamente nova.”

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