O Desafio dos Departamentos Jurídicos: O Conhecimento Existe, mas Não Circula
Juan Carretero Sánchez argumenta que o principal desafio das equipes jurídicas não reside na falta de conhecimento, mas sim na dificuldade de fazer esse conhecimento circular dentro das organizações, devido à sua fragmentação em silos.
Texto de Juan Carretero Sánchez (*)
Na minha função como chefe de Assuntos Corporativos, Jurídicos e Externos na Microsoft Portugal, recentemente passei um tempo com profissionais do setor jurídico, estudantes e acadêmicos para investigar uma questão simples, mas urgente: de que forma a tecnologia pode melhorar significativamente a prática jurídica diária? As conversas foram densas, práticas e fundamentadas em casos reais. Contudo, uma conclusão emerge com destaque.
O desafio mais premente que os departamentos jurídicos enfrentam atualmente não é a carência de especialização, esforço ou informação. O problema é a falta de fluxo de conhecimento.
O dilema: informação em excesso, conhecimento fragmentado
As equipes jurídicas dentro de grandes empresas operam em um ambiente de geração incessante de informação. Opiniões de advogados externos, análises regulatórias, políticas internas, e-mails, reuniões e decisões tomadas sob pressão se acumulam a cada dia. O verdadeiro obstáculo não é a escassez, mas a desarticulação.
Por muito tempo, as organizações acreditaram que armazenar informações era o mesmo que construir conhecimento. Na prática, grande parte do valor jurídico gerado dentro das empresas permanece em silos individuais: caixas de e-mails, pastas locais, unidades privadas ou apenas na memória individual. Quando alguém muda de cargo ou sai da empresa, esse conhecimento se torna inacessível. Não se perde porque não exista, mas porque nunca esteve interconectado.
Essa fragmentação gera consequências conhecidas. As equipes acabam trabalhando, sem perceber, em temas semelhantes de forma paralela. As análises jurídicas acabam sendo repetidas. Decisões são revisitadas porque a justificativa original não está disponível. Com o passar do tempo, as organizações se esforçam muito, mas aprendem pouco enquanto coletivo.
Essa não é uma falha de coordenação ou de boa vontade. É um problema estrutural.
Por que mais ferramentas não resolveram a questão
Diversas organizações tentaram resolver esse desafio através de sistemas de gestão do conhecimento: repositórios, bancos de dados, plataformas internas. A intenção foi correta, mas o design frequentemente ignorou a realidade do trabalho jurídico.
Esses sistemas muitas vezes demandam um grande esforço manual. Solicita-se aos profissionais jurídicos que resumam suas atividades, expliquem sua importância, classifiquem documentos, removam informações sensíveis e carreguem conteúdos – tudo isso acumulado em meio a cargas de trabalho já pesadas. Na prática, o atrito é demasiado alto. A aceitação diminui e acessar o conhecimento existente se torna tão demorado quanto recriá-lo.
Isso é especialmente relevante considerando que a complexidade legal está aumentando, não diminuindo. De acordo com a Grand View Research, o mercado global de tecnologia jurídica foi avaliado em quase 29 bilhões de dólares em 2025, impulsionado principalmente pelo aumento do volume e da complexidade do trabalho jurídico enfrentado por organizações ao redor do mundo. Embora o investimento esteja acelerando, o impacto permanece desigual.
Uma mudança de paradigma: reduzir atrito, em vez de impor sistemas
A verdadeira oportunidade proporcionada pela inteligência artificial não consiste em adicionar mais um sistema ou impor a centralização da informação. Trata-se de diminuir o atrito na maneira como o conhecimento é compartilhado.
A IA pode tornar mais visível o que já existe de maneira mais orgânica: referenciando casos anteriores, gerando resumos com base em regras claras ou simplesmente informando que uma análise existe, quem a liderou e em que contexto. O conhecimento não precisa ser centralizado para ter valor; precisa ser interconectado.
Essa distinção reflete uma verdade essencial sobre o trabalho jurídico: o valor não reside apenas nos documentos, mas nas pessoas – no seu julgamento, na sua experiência e na sua compreensão do contexto. Muitas vezes, saber com quem conversar é tão importante quanto conhecer o que existe.
Da documentação às pessoas, e da ação à percepção
Ao conectar conhecimento em vez de movê-lo, as organizações obtêm um benefício adicional: maior visibilidade estratégica. Quando o atrito é reduzido, a liderança consegue identificar onde os problemas se concentram, quais temas se repetem e onde os recursos estão mais sobrecarregados, não através de relatórios artificiais, mas a partir da atividade real.
É aqui que a inovação tecnológica se transforma em verdadeira inovação. Um estudo da Deloitte de 2024 revela que os líderes jurídicos enxergam a inteligência artificial generativa como um motor potencial para ganhos significativos de produtividade, mas apenas quando os próprios fluxos de trabalho são repensados, em vez de meramente digitalizados.
A janela de oportunidade diante de nós
Durante anos, as equipes jurídicas tentaram preencher a lacuna entre informação e aprendizado coletivo. Hoje, pela primeira vez, podemos fazê-lo sem exigir que os profissionais mudem a maneira como trabalham, mas sim trabalhando com menos atrito.
Entendemos o problema. Dispomos da tecnologia. O que falta é a decisão da liderança de conectar os pontos – permitindo que o conhecimento jurídico comece a circular onde ele gera mais valor.
