Renault Espace E

Na história do automóvel, alguns nomes se destacam e se tornam sinônimos de inovação e impacto. A Espace, da Renault, lançada em 1984, é um exemplo marcante. Esse monovolume não só criou uma nova categoria, mas também revolucionou a maneira como as famílias europeias viajavam, tornando-se, ao longo das décadas, um símbolo de longas jornadas, amplo espaço interior e uma noção de conforto acessível. Para muitos que cresceram nas décadas de 80 e 90, associar a Espace às férias de verão é quase inevitável.

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Em um aspecto pessoal, a Espace 3 foi um dos primeiros carros que dirigi após obter a habilitação, e muitas foram as viagens feitas a bordo desse monovolume icônico. Por isso, há um certo grau de subjetividade neste texto, e é importante deixar isso claro desde o início. Com a chegada da quinta geração, apresentada em 2023, a Espace se transforma completamente em relação a seus antecessores.

A Renault abandonou o tradicional formato de monovolume, que havia praticamente criado, e transformou a Espace em um SUV de sete lugares. Essa nova abordagem, alinhada ao design contemporâneo da marca, reflete a demanda atual do mercado. Reconheço a lógica por trás dessa escolha, no entanto, isso não significa que eu concorde com a mudança.

Estilo e qualidade de construção

Do ponto de vista visual, a nova Espace apresenta uma proporção adequada dentro de seu segmento. A versão Iconic testada, na cor Cinzento Báltico, é equipada com rodas de liga leve de 20 polegadas, faróis de LED diurnos, uma assinatura luminosa traseira com indicador dinâmico e lanternas traseiras que oferecem um efeito tridimensional, conferindo ao modelo uma presença muito elegante. O teto panorâmico SolarBay é uma das opções mais impressionantes, permitindo que o usuário controle a opacidade do vidro de maneira eletrônica.

No interior, a evolução em relação às gerações anteriores é imediatamente perceptível. A qualidade da construção e dos materiais utilizados deu um salto notável. Os estofos em TEP de cor cinza areia claro, feitos de material biológico, apresentam um toque agradável e um visual bastante sofisticado. O painel de instrumentos digital de 12,3 polegadas, juntamente com a tela central openR link de 12 polegadas, formam um conjunto coeso e, ao contrário do que eu temia inicialmente, mostraram-se bastante intuitivos no uso diário.

A Renault se preocupou em manter o comando do sistema de infotainment ao alcance do volante, uma característica que a marca preserva há décadas e que ainda faz uma grande diferença na facilidade de uso durante a condução. O teto panorâmico SolarBay foi, sem dúvida, um dos elementos mais fascinantes durante o teste, agradando não só ao motorista. Com um simples toque de um botão, o vidro pode se transformar gradativamente de transparente para translúcido em segmentos independentes, criando uma experiência que mistura privacidade e luminosidade de um jeito quase mágico.

A minha filha de 5 anos, que me acompanhou por grande parte do teste, ficou encantada com essa funcionalidade e passava a maior parte das viagens pedindo para ajustar os segmentos do teto. Esse é o tipo de detalhe que não aparece nas especificações, mas que fica na memória. No entanto, há dois pontos ergonômicos que merecem destaque pela sua falha. O primeiro diz respeito aos botões de controle de volume, que, além de serem digitais, estão posicionados na extremidade direita da tela central, uma localização de difícil acesso para o motorista.

O segundo aspecto, que é um pouco mais sério (embora não grave), é o posicionamento do seletor da caixa de câmbio. Colocá-lo próximo ao volante se revelou problemático em algumas situações, levando a ativações involuntárias do limpador de para-brisa quando a intenção era engatar a marcha ré em manobras de estacionamento. Esse tipo de confusão tende a desaparecer com a adaptação, mas é algo que não deveria existir em um carro dessa categoria.

Espaço e conforto interior

A conversão para o formato SUV tem um custo visível em relação ao espaço. A Espace pode comportar até sete ocupantes, mas a terceira fila é realmente limitada, não apenas para adultos. O espaço para as pernas na terceira fila é reduzido, exigindo ajustes cuidadosos nos bancos da segunda fila para que a terceira fila seja utilizável por qualquer pessoa de altura média.

Os bancos traseiros deslizantes 60/40, com encostos reclináveis na configuração 40/20/40, oferecem alguma flexibilidade; no entanto, aqueles que sempre viveram a sensação de amplo espaço das Espace anteriores certamente notarão a diferença. A segunda fila, por outro lado, proporciona um conforto excepcional e é bem espaçada. A capacidade da bagageira parte de 115 litros (com todos os assentos ocupados) e pode chegar a até 1.711 litros, uma amplitude condizente com as expectativas.

Motorização e desempenho

O sistema da motorização E-Tech Full Hybrid 200 é verdadeiramente intrigante e mais sofisticado do que parece à primeira vista. Ele combina um motor a combustão de três cilindros de 1.2 litros, com 130 cv e 205 Nm de torque, com dois motores elétricos. O motor principal de 50 kW (70 cv) e 205 Nm é responsável pela propulsão elétrica, enquanto o segundo motor, de 25 kW (34 cv) e 50 Nm, atua como assistente em situações de arranque e nas trocas de marcha.

A potência combinada alcança 200 cv, com um torque total de 410 Nm, suficiente para permitir uma aceleração de 0 a 100 km/h em 8,8 segundos. O núcleo do sistema é a transmissão automática multimodal, que combina dois modos de funcionamento do motor elétrico com quatro do motor a combustão, resultando em um total de 15 combinações possíveis.

Na prática, isso traduz-se em cinco modos de funcionamento distintos: modo totalmente elétrico, híbrido dinâmico (ambos os motores impulsionando as rodas), e-drive (motor elétrico nas rodas, motor de combustão carregando a bateria), ICE (somente o motor a combustão ativo) e regeneração (as rodas acionando o motor elétrico para recarregar a bateria). A gestão é inteiramente automática, cabendo ao motorista apenas escolher o modo e ajustar a intensidade da frenagem regenerativa usando as aletas do volante.

Em termos de condução, o modo Confort foi o que realmente me surpreendeu pela suavidade. Nas cidades, onde o sistema se destaca, é possível percorrer até 80% do trajeto em modo totalmente elétrico, e foi nesse ambiente urbano que os consumos mais impressionaram, permanecendo consistentemente abaixo de 5 litros a cada 100 km. A bateria de apenas 2 kWh pode parecer pequena, mas a velocidade com que o sistema a recarrega, tanto pelo motor a combustão quanto pela regeneração, é surpreendentemente eficaz.

A direção 4Control advanced, com eixo traseiro direcional, provou ser uma grande aliada na agilidade da Espace, especialmente nas manobras; mesmo com suas dimensões, o raio de viragem é comparável ao de um Renault Clio. No modo Sport, a Espace muda seu comportamento, tornando-se mais ágil e responsiva, mas também exige um uso mais intenso do motor a combustão, como se estivesse sempre em esforço. Funciona e é divertido na estrada, mas não é a melhor escolha para o dia a dia.

Sistemas de assistência à condução, como o assistente de direção ativo, controle de cruzeiro adaptativo, câmera 3D com visão 360º e estacionamento mãos-livres, operaram sem problemas durante o período de testes. Um detalhe muito interessante é que, ao dirigir em modo totalmente elétrico, os efeitos sonoros e a “música ambiente” foram criados por Jean-Michel Jarre, um pioneiro da música eletrônica, convidado pela Renault para compor a trilha sonora de toda sua linha de modelos eletrificados. O resultado proporciona uma transformação do silêncio do modo elétrico em uma verdadeira experiência sensorial.

Consumo e autonomia

Outro aspecto onde a motorização E-Tech Full Hybrid também se destaca é na eficiência do consumo. Durante o período de teste, os consumos permaneceram entre 4 e 5 litros a cada 100 km, superando apenas os 6 litros em estrada. Esses números são impressionantes, considerando que estamos falando de um SUV de sete lugares com 200 cv de potência.

Dessa forma, a autonomia superou os 900 km com um único tanque, principalmente em estradas abertas, o que realmente favorecia o desempenho do veículo. Este é um modelo ideal para aqueles que fazem longas viagens, já que a Espace combina conforto com uma eficiência que encanta.

Considerações finais

A nova Espace se mostra ser um carro bem construído, eficiente e tecnologicamente avançado, com uma motorização que realmente surpreende pela suavidade e pela economia de combustível. Não é o monovolume que muitos de nós lembramos, e a terceira fila não atinge as expectativas que o nome histórico infere em termos de espaço.

No entanto, é um veículo honesto, refinado e competente, capaz de recordar, em certos contextos como em viagens longas, o que tornava o modelo original tão único. Disponível a partir de 43.580 euros na versão techno, e a partir de 48.380 euros para a versão Iconic aqui analisada, a nova Espace é definitivamente um modelo a considerar. Essa versão híbrida é ideal para aqueles que ainda não se renderam completamente à eletrificação, representando uma solução intermediária perfeita.

Especificações Técnicas

  • Motor — Full hybrid E-Tech, 3 cilindros, 1.199 cc + Motor elétrico
  • Potência — 146 kW (200 cv) combinados
  • Torque — 410 Nm (combinados)
  • Bateria — 2 kWh (íons de lítio)
  • Transmissão — Automática, tração dianteira
  • 0-100 km/h — 8,8 segundos
  • Velocidade máxima — 180 km/h
  • Consumo — 5,0 l/100 km (WLTP combinado)
  • Bagageira — 115 / 1.711 litros
  • Capacidade — 7 lugares
  • Preço — a partir de 43.580 euros (unidade Iconic testada: 53.900 euros)

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