Usar powerbank em aviões: riscos e novas regras de viagem

Usar powerbank em aviões: riscos e novas regras de viagem

Para os viajantes frequentes, um powerbank tornou-se um acessório essencial, pois elimina o incómodo de buscar por tomadas e carregar adaptadores. Ao fazer uma escolha consciente do modelo, é possível encontrar dispositivos com grande capacidade e potência suficiente para um carregamento rápido da bateria do smartphone, em pouco tempo, ou até do laptop.

Contudo, existem limitações, e o aumento nos casos de incidentes com dispositivos que utilizam baterias de íon de lítio reforça a preocupação com problemas sérios.

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Entre os dispositivos, os que apresentam mais problemas são os cigarros eletrônicos (“vape”) e os powerbanks, o que levou reguladores e companhias aéreas em todo o mundo a endurecer as normas. Para entender esta situação, é preciso analisar o que ocorre dentro de uma bateria de íon de lítio quando ela falha, e os motivos que tornam esse fenômeno especialmente perigoso a altitudes elevadas.

A questão começa na química

Tanto os powerbanks quanto a maioria dos dispositivos eletrônicos portáteis, como cigarros eletrônicos, smartphones, tablets, laptops e câmeras, utilizam baterias de íon de lítio. Elas são leves, compactas e têm uma alta capacidade de armazenamento de energia, tornando-as ideais para uso portátil. Entretanto, possuem uma vulnerabilidade estrutural: quando algo falha, a reação química gerada pode se tornar descontrolável.

O fenômeno é conhecido como fuga térmica. Quando uma bateria de lítio apresenta um problema e superaquecendo ou sofrendo um curto-circuito, gera uma reação em cadeia que aumenta continuamente a temperatura interna. Nesse processo, a bateria libera cada vez mais energia, num ciclo que se retroalimenta.

O resultado pode ser intenso fumo, chamas e, em situações extremas, uma explosão. Um agravante é que os materiais envolvidos são altamente reativos e inflamáveis, o que torna os incêndios originados por lítio perigosos e complicados de apagar. Estes incêndios podem recomeçar mesmo depois de parecerem controlados.

Um powerbank é especialmente suscetível, pois, ao contrário de um smartphone ou laptop, não possui sensores de temperatura, software de monitoramento ou sistemas de gestão térmica ativos. Quando algo dá errado, não há um mecanismo de segurança que possa detectar um problema antes que esse se agrave.

Motivos que levaram à mudança das regras

Embora já tenham ocorrido outros casos anteriormente, o ponto de virada aconteceu em 28 de janeiro de 2025, durante o voo 391 da Air Busan, que partiu da Coreia do Sul rumo a Hong Kong. Este voo foi destruído por um incêndio causado por um powerbank, enquanto ainda estava em terra, no aeroporto de Gimhae.

Todos os 169 passageiros e sete membros da tripulação foram evacuados, resultando apenas em três feridos leves. Investigações indicaram que o incêndio foi causado por uma falha no isolamento interno de uma célula da bateria. Esse incidente desencadeou uma série de reações regulatórias que ainda estão em andamento.

Contudo, este não foi um incidente isolado. Entre fevereiro de 2006 e fevereiro de 2026, a FAA registrou 701 incidentes nos Estados Unidos. Esses incidentes envolveram baterias de lítio, com os powerbanks liderando a lista com 272 casos, seguidos por cigarros eletrônicos com 149 e smartphones com 106.

O número de incidentes tem crescido anualmente desde 2014. Apenas em 2025, a FAA registrou 97 incidentes em voos nos Estados Unidos, a maioria dos quais envolveu powerbanks baratos que superaqueceram durante os voos. Em outubro de 2025, um powerbank pegou fogo em um compartimento superior no voo da Air China CA139, resultando na proibição imediata de armazenamento de powerbanks nessa área por parte da United Airlines.

Em julho do mesmo ano, um incêndio no voo Virgin VA1528 foi atribuído a um powerbank, e até mesmo a TAP Air Portugal foi incluída na lista de companhias afetadas em tais incidentes. Em fevereiro de 2026, um Airbus A320 teve que voltar ao aeroporto de Gatwick, Londres, devido a um incêndio provocado por um cigarro eletrônico dentro de uma bagagem de mão no compartimento superior.

Esse incêndio foi contido com o uso de um extintor, mas as consequências poderiam ter sido muito mais graves. A aeronave conseguiu retomar sua jornada horas depois, com destino ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto. Com o aumento de casos relacionados às baterias de íon de lítio, tornou-se inviável a implementação de regras mais rigorosas.

Novidades nas regras de segurança

A resposta foi global e organizada. Em março de 2026, a ICAO, a organização internacional da aviação civil das Nações Unidas, aprovou novas normas que se aplicam a todos os 193 países membros. Este foi o primeiro padrão internacional coordenado a estabelecer limites para baterias portáteis em toda a aviação.

As novas normas estabelecem que os powerbanks não podem ser armazenados nos compartimentos superiores, devendo permanecer visíveis e acessíveis durante todo o voo. A IATA, a associação internacional do transporte aéreo, limitou os passageiros a dois powerbanks por pessoa, proibiu o carregamento de dispositivos durante o voo, e essas regras estão sendo aplicadas nas 193 companhias pertencentes à associação.

Individualmente, mais de 20 companhias, incluindo o grupo Lufthansa, a Japan Airlines, a ANA, a Emirates e a Qantas, já vetaram o uso de powerbanks a bordo. O Japão foi mais longe, banindo completamente os powerbanks em seus voos. Nos Estados Unidos, a American Airlines implementou, em 1º de maio de 2026, um limite de dois powerbanks por passageiro, cada um com menos de 100 Wh, o equivalente a 27.000 mAh em baterias padrão de 3,7 V.

Esses dispositivos devem ser transportados na bagagem de mão e estar sempre acessíveis, o que impede seu armazenamento nos compartimentos superiores, além de serem proibidos de serem utilizados durante o voo. A Southwest Airlines, por sua vez, exige que os carregadores portáteis permaneçam visíveis enquanto em uso. Um exemplo claro da aplicação dessas novas diretrizes ocorreu no dia 25 de maio, durante o voo EZY2618 da Easyjet.

Este voo, que conectava Hurgada, no Egito, ao aeroporto de Luton, em Londres, teve que realizar um pouso de emergência em Roma. Isso ocorreu porque um passageiro alertou a tripulação que havia deixado um powerbank carregando um smartphone na mala de porão. Para evitar riscos, a tripulação decidiu pousar, e foi necessário fornecer acomodação e refeições a todos os passageiros enquanto aguardavam um novo voo.

Escolhendo um powerbank seguro

A maioria dos incidentes está relacionada a dispositivos de baixo custo que não possuem certificação adequada. A maneira mais fácil de minimizar o risco é evitar equipamentos de baixa qualidade e seguir as orientações do fabricante. Também é importante evitar comportamentos de risco, como conectar muitos dispositivos ao mesmo tempo ou utilizar o powerbank enquanto ele está sendo carregado.

Do ponto de vista prático, existem algumas diretrizes simples a seguir. Prefira powerbanks de marcas reconhecidas que possuam certificação CE (obrigatória na Europa) e CCC (Certificação Compulsória da China), e verifique sempre a capacidade em Wh antes de viajar. Isto é importante, pois as companhias aéreas usam como unidade de referência a capacidade em Watt-hora, e não em mAh.

Um powerbank de 20.000 mAh a 3,7V possui cerca de 74 Wh, ficando abaixo do limite de 100 Wh aceito pela maioria das companhias aéreas. Nunca transporte powerbanks na bagagem de porão, pois as diretrizes da FAA e da EASA proíbem esta prática há anos, uma vez que um incêndio no porão é muito mais difícil de detectar e controlar do que na cabine.

Se perceber que um dispositivo começa a superaquecer ou a emitir odores estranhos durante um voo, comunique imediatamente à tripulação. A rapidez nas reações nas primeiras etapas de uma fuga térmica pode ser vital.

Cuidados diários com powerbanks

Os perigos das baterias de lítio não se limitam apenas aos aviões. O caso do Samsung Galaxy Note 7 é um exemplo claro, onde vários aparelhos explodiram ou pegaram fogo. Essa situação ocorreu inclusive com smartphones que estavam apenas guardados, sem utilização, levando a uma recall global do modelo e sua descontinuação.

Quanto ao armazenamento em casa ou no trabalho, adotar boas práticas pode reduzir significativamente a probabilidade de acidentes. A temperatura de armazenamento é um dos fatores mais críticos e frequentemente ignorados. Baterias de lítio devem ser mantidas entre 0 e 40 graus Celsius, pois temperaturas fora desse intervalo aceleram a degradação e aumentam o risco de falhas.

Evite deixar seu powerbank dentro de um carro estacionado sob o sol no verão, em cima de um a aquecedor, ou em locais com calor extremo. O calor é o principal inimigo das baterias, mas temperaturas muito baixas também afetam negativamente seu desempenho e integridade.

A localização de armazenamento também é importante. Armazene o powerbank longe de materiais inflamáveis, como papel, tecidos ou líquidos inflamáveis, e nunca o coloque em lugares onde possa ser pressionado, perfurado ou danificado. O fundo de uma mochila é um local especialmente arriscado, principalmente se houver itens afiados que possam perfurar ou danificar a bateria.

Um powerbank que exiba deformações, inchaços ou danos visíveis deve ser descartado imediatamente em um ponto de coleta de resíduos eletrônicos. Jamais coloque no lixo comum nem continue a usá-lo. Durante o carregamento, evite cobrir o dispositivo com quimonos, lençóis ou outros materiais que impeçam a dissipação de calor.

Evite carregar o powerbank em locais onde não pode supervisioná-lo, como durante a noite. Utilize sempre o cabo e carregador recomendados pelo fabricante, pois adaptadores de baixa qualidade podem causar sobrecargas que prejudicam as células internamente, sem apresentar sinais visíveis de danos.

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