Exames Nacionais Iniciam Correção Digital pela Primeira Vez e Geram Polémica entre Professores e Sindicatos

Exames Nacionais Iniciam Correção Digital pela Primeira Vez e Geram Polémica entre Professores e Sindicatos

Os alunos ainda escrevem à mão as respostas nos exames nacionais, mas este ano as provas serão digitalizadas e corrigidas por um sistema que distribui perguntas de forma isolada e anónima para cada professor responsável pela correção. O Ministério da Educação promete mais rigor, mas grupos de professores criticam a falta de transparência no processo.

Os exames nacionais do ensino secundário começaram esta terça-feira, com mais de 81 mil alunos a prestarem o exame de Português do 12.º ano, considerado o mais “popular” por ser o único obrigatório para a conclusão do secundário. Todavia, este ano marca uma transformação significativa na avaliação dos alunos. Pela primeira vez, a correção dos exames será totalmente realizada de forma digital.

Fique atualizado com as principais notícias de tecnologia em tek.sapo.pt

Ao contrário do que se previa com uma transição total para o digital, os alunos continuam a fazer as suas respostas à mão. A diferença dá-se na etapa seguinte, onde as provas são recolhidas pela PSP ou pela GNR e enviadas para o centro de digitalização do Júri Nacional de Exames. Nesse local, as provas são transformadas em arquivos digitais e distribuídas aos professores através de uma plataforma informática.

O novo modelo de correção é radicalmente distinto do anterior. Cada professor não irá corrigir provas na íntegra, recebendo apenas perguntas específicas. Essas perguntas serão distribuídas de maneira aleatória e anónima, permitindo que os docentes avaliem respostas isoladas de diferentes exames. A correção das seções de escolha múltipla será feita automaticamente, enquanto as demais respostas dependerão da avaliação dos professores classificadores.

Os exames de Geometria Descritiva A e Desenho A continuam a manter o formato anterior. A operação logística para este processo está prevista para durar 35 dias, envolvendo mais de 5.000 membros da GNR e da PSP, conforme relata o jornal Público. Este esforço operacional é significativamente maior em comparação ao ano passado, especialmente devido ao transporte das provas até Lisboa.

O Governo promete mais rigor, mas docentes apontam falta de transparência

Em maio, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, defendeu que o novo sistema será “mais rigoroso, objetivo e equitativo”, desacreditando as críticas como “alarmismo”. Em declarações à TSF, enfatizou que “entidades com vasta experiência” estão envolvidas no processo, alegando que “Portugal é exemplar nesta área”.

No entanto, as explicações não foram suficientes para convencer os grupos de professores, como a Missão Escola Pública (MEP), que questionaram o ministério sobre quem se encarrega da digitalização das provas. Segundo a MEP, a documentação disponível, que contém mais de 200 páginas de diretrizes publicadas pelo EduQA, o novo organismo encarregado da avaliação externa, não esclarece pontos essenciais do processo.

Esse movimento considera que há uma “falta de transparência em torno do processo de digitalização dos exames nacionais” e ameaça recorrer à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) se suas dúvidas, especialmente sobre quais entidades têm acesso às provas e se há envolvimento de entidades externas na digitalização, não forem respondidas.

Os sindicatos compartilham preocupações semelhantes, mas com uma perspectiva diferente. Pedro Barreiros, secretário-geral da Federação Nacional de Educação (FNE), ressalta que “a introdução de ferramentas de correção automática nunca deve substituir o papel central dos docentes na avaliação e validação pedagógica das provas”, argumentando que “a avaliação dos alunos requer contexto, interpretação e sensibilidade pedagógica que não podem ser totalmente automatizados.”

Dúvidas técnicas e sobrecarga para os professores

Entre as questões técnicas levantadas, destaca-se a capacidade do software para lidar com particularidades do papel. Tanto os sindicatos quanto os movimentos questionam se a plataforma estará apta a interpretar corretamente correções manuais, como respostas que foram riscadas e substituídas pelos próprios alunos durante os exames. Além disso, existem preocupações sobre a carga de trabalho que será imposta aos professores classificadores.

Cristina Mota, representante do movimento MEP, alertou em declarações à CNN Portugal que a correção em formato digital “exige uma maior concentração” e que “o professor que estiver a corrigir os itens no computador enfrentará um esforço adicional e maior desgaste”. De acordo com ela, muitos colegas já manifestaram a intenção de imprimir as respostas para efetuar a correção inicialmente em papel.

A Federação Nacional de Professores (FENPROF) já notificou problemas em exames digitais anteriormente em outros níveis de ensino. O contexto torna essa mudança particularmente arriscada, pois é uma alteração em grande escala, aplicada em massa na sua primeira edição. A falta de um período piloto extenso transforma toda a situação em uma espécie de aposta, que pode resultar muito bem ou gerar consideráveis controvérsias.

Ainda assim, há quem veja benefícios na mudança, como a implementação do sistema de correção centralizada e anónima que pode, em teoria, minimizar divergências entre professores classificadores, um problema histórico nos exames nacionais.

A primeira fase dos exames nacionais acontece entre 16 e 26 de junho, enquanto a segunda fase ocorrerá entre 16 e 22 de julho. Os resultados da primeira fase serão divulgados a 14 de julho, e as inscrições para o ensino superior iniciarão uma semana depois, a 20 de julho, com os resultados a serem revelados a 23 de agosto. No próximo ano letivo, as instituições de ensino superior públicas oferecerão 78.283 vagas, um aumento de 1.465 em relação ao ano anterior.

Inscreva-se na newsletter do TEK Notícias e receba diariamente as principais notícias de tecnologia diretamente na sua caixa de entrada.

Posts Semelhantes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *