Cientistas descobrem gatilho oculto no intestino por trás da ALS e demência

Cientistas descobrem gatilho oculto no intestino por trás da ALS e demência

Pesquisadores da Case Western Reserve University descobriram uma descoberta que pode mudar a forma como os médicos abordam duas das mais devastadoras desordens cerebrais. Seu trabalho aponta para um agente inesperado na progressão da doença: as bactérias intestinais.

A equipe identificou uma conexão clara entre os micróbios no sistema digestivo e os danos cerebrais observados na Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e na Demência Frontotemporal (DFT). Eles descobriram que certos açúcares bacterianos podem provocar reações imunológicas que levam à morte das células cerebrais e, de forma importante, também identificaram maneiras de interromper esse processo.

Como a ELA e a DFT Afetam o Cérebro

A DFT tem um impacto primário nas regiões frontal e temporal do cérebro, levando a mudanças na personalidade, comportamento e linguagem. Já a ELA afeta os neurônios motores, causando fraqueza muscular progressiva que eventualmente leva à paralisia.

As causas subjacentes de ambas as condições ainda não são totalmente compreendidas. Cientistas têm explorado uma variedade de fatores possíveis, incluindo genética, exposições ambientais, lesões cerebrais e dieta.

Um Mecanismo Intestinal-Cerebral que Explica o Risco de Doença

O estudo, publicado na Cell Reports, ajuda a responder uma pergunta de longa data sobre por que algumas pessoas desenvolvem essas doenças enquanto outras não. Os pesquisadores descobriram uma via molecular que liga a atividade intestinal ao dano cerebral, especialmente em indivíduos com certas mutações genéticas.

“Descobrimos que bactérias intestinais nocivas produzem formas inflamatórias de glicogênio (um tipo de açúcar), e que esses açúcares bacterianos ativam respostas imunológicas que danificam o cérebro”, afirmou Aaron Burberry, professor assistente no Departamento de Patologia da Escola de Medicina da Case Western Reserve.

Entre os 23 pacientes de ELA/DFT estudados, 70% apresentavam níveis elevados desse glicogênio prejudicial. Em contrapartida, apenas cerca de um terço dos indivíduos sem essas doenças mostraram níveis semelhantes.

Novos Alvos de Tratamento e Esperança para Pacientes

Essas descobertas podem ter relevância clínica imediata. Ao identificar açúcares intestinais nocivos como um fator que impulsiona a doença, os pesquisadores agora têm novos alvos para tratamento. O estudo também destaca biomarcadores potenciais que podem ajudar os médicos a identificar pacientes que possam se beneficiar de terapias focadas no intestino.

Os resultados abrem portas para novos tratamentos destinados a descompor esses açúcares prejudiciais no sistema digestivo. Também apoiam o desenvolvimento de medicamentos projetados para atuar na conexão entre o intestino e o cérebro, oferecendo esperança para retardar ou prevenir a progressão da doença.

Alex Rodriguez-Palacios, professor assistente no Instituto de Pesquisa em Saúde Digestiva da Escola de Medicina, disse que a equipe conseguiu reduzir esses açúcares prejudiciais em seus experimentos, o que “melhorou a saúde cerebral e prolongou a vida”.

Por que Alguns Portadores Genéticos Desenvolvem a Doença

A descoberta é especialmente importante para pessoas com a mutação C90RF72, a causa genética mais comum da ELA e DFT. Nem todos com essa mutação desenvolvem a doença, e essa pesquisa ajuda a explicar por que isso acontece.

As descobertas sugerem que as bactérias intestinais atuam como um gatilho ambiental, influenciando a presença da doença em indivíduos geneticamente predispostos.

Métodos de Pesquisa Exclusivos Possibilitaram o Avanço

A pesquisa foi viabilizada por métodos laboratoriais avançados no Departamento de Patologia e no Instituto de Pesquisa em Saúde Digestiva da universidade. Os cientistas utilizaram modelos de camundongos livres de germes, que são criados em condições completamente estéreis, sem quaisquer bactérias. Essa abordagem permite que os pesquisadores isolem os efeitos de micróbios específicos na doença.

O programa é liderado por Fabio Cominelli, Professor Distinto e diretor do Instituto de Pesquisa em Saúde Digestiva. Ele se baseia em um inovador sistema de habitação estéril “cápsula dentro de cápsula” desenvolvido por Rodriguez-Palacios, uma capacidade rara que possibilitou esse trabalho.

Esse arranjo permite estudos em larga escala do microbioma, tornando possível investigar como o intestino e o cérebro se comunicam. Métodos tradicionais geralmente limitam os pesquisadores a estudar apenas um número reduzido de animais de cada vez.

Próximos Passos e Ensaios Clínicos Potenciais

“Para entender quando e por que o glicogênio microbiano nocivo é produzido, a equipe irá conduzir estudos maiores examinando comunidades do microbioma intestinal em pacientes de ELA/DFT antes e após o início da doença”, afirmou Burberry. “Ensaios clínicos para determinar se a degradação do glicogênio em pacientes de ELA/DFT poderia retardar a progressão da doença também são apoiados por nossas descobertas e podem começar em um ano.”

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