Cientistas descobrem nova forma de prevenir doenças gengivais sem matar as boas bactérias
As bactérias estão em constante evolução para sobreviver. Uma consequência significativa é que muitos microrganismos nocivos estão se tornando resistentes a antibióticos e desinfetantes, criando sérios desafios para a medicina e a saúde pública. Entretanto, nem todas as bactérias são perigosas. Na verdade, muitas são essenciais para a manutenção da saúde do corpo humano. Atualmente, cientistas estão investigando se é possível influenciar o comportamento bacteriano em vez de simplesmente tentar eliminá-las.
No interior da cavidade oral, as bactérias se comunicam praticamente o tempo todo. Aproximadamente 700 espécies bacterianas habitam essa região, muitas das quais trocam mensagens químicas através de um processo conhecido como “quorum sensing”. Algumas dessas bactérias utilizam moléculas sinalizadoras chamadas N-acil homoserina lactonas (AHLs) para se comunicar.
Cientistas do College of Biological Sciences e da School of Dentistry se propuseram a investigar como esses sinais bacterianos moldam o microbioma bucal e se interromper essa comunicação poderia ajudar a prevenir o acúmulo de placa prejudicial, enquanto preserva as bactérias benéficas. As descobertas, publicadas na revista npj Biofilms and Microbiomes, podem eventualmente influenciar tratamentos além da odontologia.
Cientistas Focam na Comunicação Bacteriana
A equipe de pesquisa descobriu diversos padrões importantes sobre a interação entre as bactérias da boca:
- Bactérias presentes na placa dental produzem sinais AHL em ambientes aeróbicos (como acima da linha da gengiva), e esses sinais podem ainda impactar as bactérias em ambientes anaeróbicos (abaixo da linha da gengiva).
- A remoção dos sinais AHL usando enzimas especiais chamadas lactonases aumentou as populações de bactérias associadas a uma boa saúde bucal.
- As descobertas sugerem que enzimas selecionadas de forma cuidadosa podem ser capazes de remodelar as comunidades de placa dental e apoiar um microbioma oral mais saudável.
“A placa dental se desenvolve de maneira sequencial, muito semelhante a um ecossistema florestal,” disse Mikael Elias, professor associado no College of Biological Sciences e autor sênior do estudo. “Espécies pioneiras como Streptococcus e Actinomyces são os primeiros colonizadores em comunidades simples – geralmente são inofensivas e associadas à boa saúde bucal. Colonizadores tardios, cada vez mais diversos, incluem as bactérias do ‘complexo vermelho’, como Porphyromonas gingivalis, que estão fortemente ligadas à doença periodontal. Ao interromper os sinais químicos que as bactérias usam para se comunicar, pode-se manipular a comunidade de placa para que permaneça ou retorne ao seu estágio associado à saúde.”
Níveis de Oxigênio Alteram o Comportamento Bacteriano
Os pesquisadores também descobriram que a disponibilidade de oxigênio desempenha um papel surpreendentemente importante na determinação de como essas mensagens bacterianas influenciam o crescimento da placa.
“O que é particularmente notável é como a disponibilidade de oxigênio muda tudo,” disse o autor principal Rakesh Sikdar. “Quando bloqueamos a sinalização AHL em condições aeróbicas, observamos um aumento de bactérias associadas à saúde. No entanto, quando adicionamos AHLs em condições anaeróbicas, promovemos o crescimento de colonizadores tardios associados a doenças. O quorum sensing pode ter papéis muito diferentes acima e abaixo da gengiva, o que tem grandes implicações para como abordamos o tratamento de doenças periodontais.”
Essa descoberta sugere que a comunicação bacteriana funciona de maneira diferente dependendo de onde as bactérias estão localizadas na boca. Essa percepção pode ajudar os pesquisadores a desenvolver abordagens mais direcionadas para controlar doenças gengivais e manter um equilíbrio mais saudável de micróbios.
Tratamentos Futuros Podem Proteger Bactérias Saudáveis
A próxima fase da pesquisa examinará como a sinalização bacteriana varia em diferentes áreas da boca e em pessoas em diferentes estágios de doença periodontal.
“Compreender como as comunidades bacterianas se comunicam e se organizam pode, em última análise, nos fornecer novas ferramentas para prevenir doenças periodontais – não através da guerra contra todas as bactérias orais, mas através da manutenção estratégica de um equilíbrio microbiano saudável,” afirmou Elias.
Os pesquisadores acreditam que essa estratégia poderá ser expandida além da saúde bucal. Desequilíbrios no microbioma, conhecidos como disbiose, estão associados a várias doenças em todo o corpo, incluindo certos tipos de câncer. Os cientistas esperam que essas descobertas ajudem a estabelecer as bases para terapias futuras que direcionem comunidades microbianas a estados mais saudáveis, em vez de eliminar bactérias completamente.
O financiamento para o estudo foi fornecido pelos Institutos Nacionais de Saúde.
