Crescimento das mortes por desespero antes dos opioides
Um novo estudo indica que a diminuição da participação em religiões organizadas entre americanos brancos de meia-idade com níveis educacionais mais baixos pode ter contribuído para o aumento das chamadas “mortes de desespero”. Essas mortes incluem fatalidades relacionadas a overdoses de drogas, suicídio e doenças hepáticas alcoólicas.
Os pesquisadores identificaram um padrão claro a nível estadual. Os estados que sofreram as quedas mais acentuadas na frequência a igrejas entre 1985 e 2000 também registraram os maiores aumentos nas mortes por essas causas no mesmo período.
Uma Tendência Anterior à Crise dos Opioides
As mortes de desespero são frequentemente associadas à chegada do OxyContin e de outros opioides potentes no final da década de 1990. No entanto, a nova análise aponta que a tendência ascendente começou antes, exatamente quando a participação religiosa começou a cair.
“O que observamos neste estudo é o início da história, antes que os opioides se tornassem um problema maior, e isso mostra que os aumentos nas mortes de desespero já estavam começando a acontecer quando a crise dos opioides eclodiu,” afirmou Tamar Oostrom, coautora do estudo e professora assistente de economia na Universidade Estadual de Ohio.
Oostrom colaborou na pesquisa com Tyler Giles, do Wellesley College, e Daniel Hungerman, da Universidade de Notre Dame. O estudo foi publicado online no Journal of the European Economic Association.
Fontes de Dados e Populações Atingidas
A equipe de pesquisa combinou dados de pesquisas sobre envolvimento religioso da General Social Surveys com registros de mortalidade dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.
Os achados mostraram que a queda na participação religiosa estava concentrada entre adultos brancos de meia-idade sem diploma universitário. Este foi o mesmo grupo que registrou os aumentos mais acentuados nas mortes de desespero, afirmou Oostrom.
A relação entre a menor frequência à igreja e a maior mortalidade apareceu consistentemente entre os gêneros e foi observada tanto em áreas rurais quanto urbanas dos Estados Unidos.
Reforma das Leis Blue e Mudanças na Frequência Religiosa
Para reforçar suas descobertas, os pesquisadores examinaram a revogação das “leis blue”, que anteriormente restringiam muitas empresas de operar aos domingos. Essas leis limitavam a competição com a frequência aos cultos, reduzindo atividades alternativas.
Uma onda significativa de revogações ocorreu em 1985, quando Minnesota, Carolina do Sul e Texas aboliram suas leis blue. Os pesquisadores compararam os resultados nesses estados com outros que não fizeram mudanças semelhantes naquela época.
A análise mostrou que a revogação das leis blue levou a uma queda de 5 a 10 pontos percentuais na frequência semanal aos serviços religiosos. Nos anos seguintes, esses mesmos estados também experimentaram taxas mais altas de mortes de desespero.
Tendências de Mortalidade Antes e Depois dos Opioides
Oostrom notou que as mortes de desespero entre americanos brancos de meia-idade estavam em declínio constante desde o final da década de 1970 até o início da década de 1990. Esse declínio eventualmente estagnou, uma mudança que coincide com a queda na frequência religiosa e a revogação das leis blue.
Após a introdução do OxyContin em 1996, as taxas de mortalidade aumentaram drasticamente.
“OxyContin e a crise dos opioides tornaram uma situação ruim ainda pior, mas as mortes de desespero já estavam em ascensão,” afirmou Oostrom.
Por Que A Frequentação Religiosa Pode Afetar a Saúde
O estudo levanta uma questão importante: como a diminuição da frequência religiosa pode contribuir para taxas mais altas de mortalidade?
Oostrom explicou que as pessoas que deixam de frequentar os serviços religiosos geralmente perdem vínculos sociais, que pesquisas anteriores mostraram desempenhar um papel crucial na saúde física e mental. No entanto, os achados sugerem que a conexão social por si só não explica completamente o padrão observado.
Os pesquisadores não notaram quedas semelhantes em outros tipos de atividades sociais durante o mesmo período em que a frequência à igreja estava diminuindo.
“A religião pode oferecer uma forma de dar sentido ao mundo, um senso de identidade em relação aos outros, que não pode ser facilmente substituído por outras formas de socialização,” disse Oostrom.
Ela também enfatizou que a crença em si não diminuiu durante os anos estudados.
“O que mudou foi a forma como as pessoas se identificavam como religiosas e se frequentavam a igreja. Essas são as coisas que importam quando se trata de mortes de desespero,” completou.
A Participação Comunitária Pode Reverter a Tendência?
As descobertas levantam a possibilidade de que um maior envolvimento em organizações religiosas ou até mesmo em grupos comunitários seculares possa ajudar a combater o aumento das taxas de mortalidade. No entanto, os autores alertam que as evidências existentes não oferecem muita otimismo.
“Até onde sabemos, as descobertas sobre esse ponto foram até agora pessimistas,” escreveram os pesquisadores.
Oostrom acrescentou que não há sinais claros de que as quedas mais amplas na participação comunitária estejam se revertendo. Ela também observou que os efeitos positivos do envolvimento religioso na satisfação com a vida são difíceis de reproduzir através de outras formas de engajamento social.
O papel crescente das mídias sociais no século XXI pode ainda reduzir a probabilidade de uma reversão significativa, disse ela.
“As pessoas são menos religiosas agora, e ainda não surgiu um substituto que forneça o que a religião oferecia a muitas pessoas. E nosso artigo sugere que isso pode ter impactos de longo prazo na saúde e na mortalidade,” concluiu Oostrom.
