Nuvem: ser ou não ser soberana? Eis a questão

Nuvem: ser ou não ser soberana? Eis a questão

Escrito por Rui Ribeiro (*)

Em uma era em que a economia, a segurança e a própria democracia estão cada vez mais imersas no digital, discutir a nuvem é, inevitavelmente, discutir poder. E isso nos leva à reflexão sobre soberania. Mas o que realmente significa soberania nesse cenário?

Soberania, em sua definição mais clássica, refere-se ao poder absoluto de um Estado sobre seu território, suas leis e seu destino. Quando transportamos essa ideia para o ambiente digital, falamos de soberania digital: a capacidade de um país administrar seus dados, suas infraestruturas tecnológicas essenciais e as regras que regulam seu funcionamento no espaço digital. Isso transcende a mera tecnologia; trata-se, acima de tudo, de autonomia estratégica fundamentada em uma base tecnológica independente.

Um Estado que renuncia ao controle sobre seus dados e sistemas críticos está, ainda que de maneira parcial, abrindo mão da capacidade de moldar seu próprio futuro. E esse futuro é concreto, formado por decisões palpáveis: como proteger os dados dos cidadãos, garantir a continuidade dos serviços públicos, responder a crises e assegurar que interesses externos não se sobreponham ao bem nacional.

Nesse contexto, é crucial redirecionar o debate: a soberania não é um conceito de mercado, não é uma etiqueta comercial. A soberania é uma prerrogativa do Estado. Atualmente, observamos diversas empresas clamando por “nuvem soberana” como um diferencial competitivo, muitas vezes de maneira desalinhada e até contraditória. No entanto, soberania não é algo que se adquire em embalagens ou se resolve por meio de marketing. É um conceito político que deve ser estruturado estrategicamente e implementado com governança clara, levando em conta que, para desafios complexos, devemos buscar soluções integradas e, neste contexto, integradas significa em cooperação.

A cooperação internacional, também neste âmbito, se revela um vetor de afirmação da soberania nacional, exigindo que, no campo da soberania digital, busquemos uma colaboração digital, um novo paradigma em que todos somos chamados a contribuir para a segurança nacional.

Em um Estado democrático, cada cidadão é, de certa forma, um “acionista”. Por meio do voto, ele decide quem dirige os destinos coletivos. Esses representantes possuem uma responsabilidade clara: garantir que as decisões tomadas reflitam a vontade coletiva e protejam os interesses nacionais, atenuando a influência de pressões externas, sejam econômicas, tecnológicas ou geopolíticas.

Por isso, a definição da estratégia de nuvem, especialmente sua dimensão soberana, deve ser uma tarefa do Estado. Compete a ele estabelecer as regras do jogo, os requisitos de segurança, os modelos de governança, os critérios de localização de dados e os princípios de interoperabilidade. Também é responsabilidade do Estado regular o mercado de forma assertiva, criando condições para que funcione com transparência, concorrência saudável e alinhamento com os objetivos estratégicos do país.

A nuvem é atualmente uma infraestrutura crítica, comparável às redes de energia, água ou telecomunicações. Serve de base para serviços públicos, empresas e a economia digital. Ter o controle sobre essa infraestrutura, seja de forma direta ou através de modelos rigorosamente regulados, é fundamental para assegurar resiliência, segurança e capacidade decisória. Essa infraestrutura crítica…

No entanto, sob a ótica da soberania, não se constrói em isolamento. Ao contrário, ela se edifica através de inteligência estratégica, abertura e aprendizado com as melhores práticas globais. Não se trata de fechar as fronteiras digitais, mas de saber integrá-las em um modelo que proteja interesses nacionais enquanto se absorvem inovações, práticas e modelos internacionais de referência. Soberania não é sinônimo de autarquia tecnológica, ou seja, de uma sociedade que se sustenta sozinha. Soberania significa capacidade de escolha.

Isso traz à tona um ponto crucial: a necessidade de promover uma indústria nacional e europeia de nuvem que seja robusta, competitiva e inovadora, capaz de dialogar com os principais atores globais e incorporar o que há de mais avançado tecnologicamente. Ao estimular a demanda do setor público, tanto em nível central quanto local, cria-se uma massa crítica para o desenvolvimento de fornecedores locais, que também devem ser incentivados a competir com os melhores, aprender com eles e, preferencialmente, superá-los em nichos específicos.

Esse equilíbrio entre autonomia e abertura é vital. Um país que consome apenas tecnologia externa se torna dependente. Porém, um país que ignora o que acontece globalmente corre o risco de se tornar irrelevante. A verdadeira soberania é construída na capacidade de definir regras próprias, sem deixar de participar ativamente nos ecossistemas internacionais de inovação.

Esse ciclo virtuoso gera vantagens competitivas, cria novos modelos de negócio e posiciona o país como um centro de atração de talentos e investimentos. Mais do que proteger, trata-se de capacitar. Mais do que fechar, trata-se de estruturar, cooperar e aprender.

A soberania digital, quando bem estruturada, não cerceia o mercado, mas o orienta. Não inibe a inovação; ao contrário, a impulsiona. Não isola o país, mas o posiciona de maneira mais favorável no cenário internacional.

Dessa forma, a questão não é simplesmente “ser ou não ser soberano”. A verdadeira indagação é: queremos ser arquitetos do nosso futuro digital ou meros consumidores das decisões alheias?

A resposta, essa, deve transcender aspectos técnicos. Precisa ser política, estratégica e, acima de tudo, coletiva.

Nesse cenário, o Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais (OEID) busca contribuir para o debate público sobre essa temática, com a esperança de que possamos colocar Portugal na vanguarda do desenvolvimento digital… onde apostar em uma nuvem soberana nos parece essencial.

(*) Partner Associado da Zertive e Professor na Universidade Lusófona, além de Membro do Conselho Consultivo do Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais (OEID)

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