Será que essa descoberta pode transformar a abordagem do tratamento do câncer no futuro? Nos estudos laboratoriais, a resposta parece ser promissora. Uma equipe internacional de cientistas identificou um processo biológico fundamental que ajuda o câncer de pâncreas a se proliferar e a escapar do sistema imunológico. Ao interromper esse processo, os pesquisadores conseguiram reduzir significativamente os tumores em experimentos com animais.
Os resultados revelam uma forma central pela qual as células cancerosas se protegem dos ataques imunológicos. Quando esse mecanismo de proteção foi bloqueado, os tumores em animais de laboratório entraram em colapso rapidamente, indicando uma nova vulnerabilidade poderosa em uma das formas de câncer mais mortais.
Descobertas Publicadas e Colaboração Global
O estudo foi publicado na revista Cell e conduzido por um grupo internacional de pesquisadores. Grande parte do trabalho experimental foi realizada por Leonie Uhl, Amel Aziba e Sinah Löbbert, junto com colaboradores da Universidade de Würzburg (JMU), do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA), e do Hospital Universitário de Würzburg.
Martin Eilers, presidente do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da JMU, liderou a pesquisa como parte da equipe KOODAC* do Cancer Grand Challenges. O suporte financeiro foi fornecido pela Cancer Research UK, pela Fundação Crianças Câncer Livre (Kika) e pelo Instituto Nacional do Câncer da França (INCa) através da iniciativa Cancer Grand Challenges. Financiamentos adicionais foram obtidos por meio de uma Bolsa Avançada da Comissão Europeia de Pesquisa concedida a Eilers.
A Proteína que Impulsiona o Crescimento do Câncer
Os pesquisadores concentraram-se na MYC, uma proteína que tem sido estudada por décadas na biologia do câncer. A MYC é chamada de oncoproteína porque desempenha um papel importante na indução da divisão celular. “Em muitos tipos de tumores, essa proteína é uma das principais responsáveis pela divisão celular e, consequentemente, pelo crescimento descontrolado do tumor”, explica Martin Eilers.
O que permanecia incerto era como os tumores com alta atividade de MYC conseguem evitar a detecção pelo sistema imunológico. Apesar do rápido crescimento, os tumores impulsionados por MYC frequentemente falham em desencadear uma resposta imune, permitindo que se espalhem sem controle.
MYC Assume uma Segunda Função Sob Estresse
O novo estudo fornece uma resposta. Os pesquisadores descobriram que a MYC tem duas funções distintas. Em condições normais, a MYC se liga ao DNA e ativa genes que promovem o crescimento celular. Mas no ambiente estressante dentro de tumores que crescem rapidamente, a MYC muda seu comportamento.
Em vez de se ligar ao DNA, a MYC começa a se conectar a moléculas de RNA recém-produzidas. Essa mudança faz com que múltiplas proteínas MYC se agrupem, formando aglomerados densos chamados multiméricos que atuam como condensados moleculares.
Esses condensados funcionam como pontos de reunião dentro da célula, atraindo outras proteínas, especialmente o complexo exossômico, e concentrando-as em um único local.
Silenciando o Sistema de Alerta Interno da Célula
O complexo exossômico desempenha um papel de limpeza dentro das células. Neste caso, ele desmantela seletivamente híbridos de RNA-DNA, que são subprodutos defeituosos da atividade gênica. Normalmente, esses híbridos atuam como sinais de emergência, alertando o sistema imunológico que algo está errado dentro da célula.
Ao organizar a destruição desses híbridos, a MYC efetivamente desativa esse sistema de alarme antes que ele possa ativar as defesas imunes. Como resultado, o processo de sinalização nunca se inicia, e as células imunológicas não reconhecem o tumor como uma ameaça.
Uma Função Separada que Permite a Evasão Imune
A equipe demonstrou que essa habilidade de ocultação do sistema imunológico depende de uma região específica de ligação ao RNA dentro da proteína MYC. Importante notar que essa região não é necessária para a função da MYC na promoção do crescimento celular, significando que as duas funções operam de forma independente.
Os pesquisadores demonstraram que a capacidade da MYC em promover o crescimento tumoral e sua capacidade de suprimir a detecção imunológica são processos mecanicamente separados.
Os Tumores Colapsam Quando a Proteção é Removida
Para testar as implicações, os cientistas alteraram a MYC para que não pudesse mais se ligar ao RNA. Sem essa função, a MYC não conseguiu recrutar o complexo exossômico ou suprimir os alarmes imunológicos.
Os resultados em modelos animais foram impressionantes. “Enquanto tumores pancreáticos com MYC normal aumentaram de tamanho 24 vezes em 28 dias, tumores com uma proteína MYC defeituosa colapsaram durante o mesmo período e diminuíram em 94%, mas apenas se os sistemas imunológicos dos animais estivessem intactos”, afirma Martin Eilers.
Isso confirmou que a atividade imunológica era essencial para o colapso do tumor.
Um Alvo Mais Preciso para Futuras Terapias
As descobertas abrem novas possibilidades para o tratamento do câncer. Esforços passados para desativar totalmente a MYC falharam porque a proteína também é crítica para as células saudáveis. O direcionamento amplo pode causar efeitos colaterais sérios.
O novo mecanismo identificado oferece uma abordagem mais focada. “Em vez de desligar completamente a MYC, futuros medicamentos poderiam inibir especificamente apenas sua capacidade de se ligar ao RNA. Isso potencialmente deixaria sua função promovedora de crescimento intacta, mas removeria o manto de invisibilidade do tumor”, explica Eilers. Isso poderia permitir que o sistema imunológico reconhecesse e atacasse o câncer novamente.
Próximos Passos
Apesar da promessa, os pesquisadores alertam que as aplicações clínicas ainda estão longe. Trabalhos futuros precisarão determinar como os híbridos RNA-DNA ativadores do imunológico saem do núcleo celular e como a atividade de ligação ao RNA da MYC molda o ambiente local do tumor.
Dr. David Scott, diretor do Cancer Grand Challenges, destacou a importância mais ampla do trabalho: “O Cancer Grand Challenges existe para apoiar equipes internacionais como a KOODAC que estão expandindo os limites do que sabemos sobre o câncer. Pesquisas como esta mostram como desvelar os mecanismos que os tumores usam para se esconder do sistema imunológico pode abrir novas possibilidades, não apenas para cânceres em adultos, mas também para cânceres infantis que são o foco da equipe KOODAC. É um exemplo encorajador de como a colaboração internacional e a expertise diversificada podem ajudar a enfrentar alguns dos desafios mais difíceis na pesquisa do câncer.”
Sobre o Cancer Grand Challenges
Fundado em 2020 pela Cancer Research UK e pelo National Cancer Institute, o Cancer Grand Challenges reúne equipes de pesquisa líderes de todo o mundo para abordar os problemas mais difíceis na ciência do câncer. Esses desafios são complexos demais para que qualquer instituição ou país os resolva sozinho.
Com prêmios de financiamento de até £20 milhões, o programa permite que equipes cruzem fronteiras científicas e geográficas tradicionais para acelerar o progresso contra o câncer.














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