Tiago Lagoa defende ética e transparência na publicidade digital: Minha credibilidade não é comprada
A publicidade digital está por toda parte, mas nas redes sociais a distinção entre opiniões genuínas e conteúdos patrocinados nem sempre é fácil de perceber. Tiago Lagoa, engenheiro ambiental e produtor de conteúdo, enfatiza a relevância da transparência e da ética.
Com a implementação do Regulamento dos Serviços Digitais (DSA), os influenciadores têm responsabilidades bem definidas: qualquer conteúdo de natureza comercial deve ser claramente rotulado como publicidade, sempre que exista uma compensação financeira ou material. Contudo, essa prática ainda não é a norma e a transparência permanece uma exceção em vez de uma regra.
Dentro da campanha “Segue os Teus Direitos” da DECO, Tiago Lagoa, engenheiro ambiental e criador de conteúdo na área “pouco sexy” da sustentabilidade, compartilhou suas vivências e seu entendimento sobre a ética e a transparência na publicidade digital. Esta iniciativa é apoiada pelo Fundo para a Promoção dos Direitos dos Consumidores e pelo TEK Notícias, com uma série de episódios destinados a esclarecer práticas online que impactam milhões de usuários.
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Em uma entrevista para o podcast DECOPODe, Tiago Lagoa aprofunda a distinção entre conteúdo espontâneo, relatos pessoais e mensagens publicitárias, ressaltando que a linha entre opinião e promoção está cada vez mais tênue.
Transparência como exceção
Segundo Tiago Lagoa, a publicidade nas redes sociais deveria ser “mais responsável” e, acima de tudo, mais transparente. Apesar da existência de códigos de conduta e diretrizes claras para marcar conteúdos pagos — como a utilização do selo de Parceria Paga ou a hashtag #pub —, a aplicação dessas regras permanece inconsistente.
“Há quem faça muito bem, quem não faça, e quem fique entre os dois. Existe um lado shady: sabemos que é publicidade, mas não está claramente identificado à primeira vista”, explica Tiago Lagoa.
A falta de conhecimento sobre as regras e a escassez na fiscalização são dois dos problemas destacados. Quando um criador não rotula um vídeo como publicitário, é desafiador para qualquer entidade verificar se o conteúdo é, de fato, pago. E, para os usuários, isso resulta em um aumento da desconfiança e diminui a capacidade de distinguir entre opiniões autênticas e comunicações publicitárias.
Tiago Lagoa reconhece que a falta de identificação clara em vídeos e postagens impacta não apenas os consumidores, mas também os criadores de conteúdo. Para ele, a credibilidade é um ativo fundamental. “Não é o dinheiro daquela publicidade que sustenta a minha credibilidade”, alerta.
Quando um usuário se depara com um vídeo que parece orgânico, mas na verdade é publicidade, o impacto é imediato: a confiança se quebra. E essa quebra, ele enfatiza, “contamina todo o ecossistema”, prejudicando criadores responsáveis e marcas que atuam de maneira ética.
Assista ao vídeo do podcast DECOPODe
Sustentabilidade, ética e o peso da responsabilidade
Trabalhar na área ambiental também acarreta desafios adicionais. Tiago Lagoa aponta que recusa parcerias com setores que contradizem os valores que defende, como a indústria de combustíveis fósseis, e exige rigor científico na comunicação. Por isso, ele já deixou de realizar alguns trabalhos, já que certos temas são inegociáveis.
“Não posso falar sobre mudanças climáticas e, de repente, apoiar combustíveis fósseis. Isso seria um tiro na minha credibilidade”, afirma.
Além de comunicar produtos, o criador também oferece consultoria e capacitação a marcas que buscam aprimorar sua consciência ambiental e evitar práticas de greenwashing. Com o advento da diretiva europeia Green Claims, que exigirá evidências concretas para alegações de sustentabilidade, esse trabalho ganha ainda mais relevância.
No Instagram de Tiago Lagoa, é possível acompanhar suas iniciativas e as postagens onde promove a sustentabilidade ambiental.

Impacts dos algoritmos, alcance e estigmas em relação à publicidade
Outro assunto relevante é o efeito dos algoritmos. Vários criadores percebem que conteúdos marcados como patrocinados têm menor alcance, mas Tiago Lagoa argumenta que a situação é mais complexa. “Pode ser o algoritmo, mas também pode ser o preconceito dos usuários: ‘Lá está mais um criador fazendo publicidade'”, ele observa. Contudo, admite que “quando a publicidade é boa e genuína, não há algoritmo que a impeça.”
A autenticidade e a coerência entre o produto promovido e o estilo de vida do criador são fundamentais.
“Os números não são tudo. E, às vezes, comunidades menores valorizam mais a personalidade e a causa do criador, muitas vezes vendendo mais do que um criador com um conteúdo mais extenso”, admite.
O influenciador também destaca a importância da responsabilidade das plataformas e das agências de comunicação. Tiago Lagoa menciona casos em que agências solicitam que não utilizem a hashtag #pub, desrespeitando a legislação e perpetuando práticas obscuras, o que não deveria ocorrer.
Para aqueles que desejam ingressar no mundo da criação de conteúdo, Tiago oferece um conselho simples: “Sejam autênticos. Pensem no que desejam transmitir. E analisem o que já existe para se diferenciarem.”
A autenticidade, afirma, supera a estética perfeita e deve ser a base para a construção de uma comunidade forte e bem informada. “Acredito que o estético, o correto, já não vende. Nós não levamos vidas perfeitas e, portanto, essa sinceridade e conexão que temos com as pessoas comuns é cada vez mais apreciada.”
E quanto ao futuro dessa profissão? “Não sei exatamente, porque há cinco ou seis anos, quando comecei, diziam: ‘Aproveite agora, isso não dura para sempre’. Mas o marketing sempre existirá”, pondera Tiago Lagoa. “Acho que quem quiser criar conteúdos nas redes e viver de publicidade, isso não acabará. Pode não ser em plataformas como o Instagram, pode surgir algo novo. Antes não fazia-se publicidade no TikTok e agora já se faz”, recorda o influenciador.
