Aprender com Segurança: Como Portugal e Noruega Transformam Recomendações dos Alunos

Aprender com Segurança: Como Portugal e Noruega Transformam Recomendações dos Alunos

O ComParte e a Forandringsfabrikken, no contexto do projeto europeu Aprender com Segurança, desenvolveram ferramentas com base na experiência de aproximadamente 260 alunos em Portugal e na Noruega, em situações reais de aprendizado. As recomendações dos jovens foram assim convertidas em recursos práticos destinados aos professores.

O Notícias ao Minuto entrevistou as representantes do ComParte e da Forandringsfabrikken, que detalharam o projeto e seus resultados concretos.

A gestora de projeto, Ísis Capucha, iniciou explicando que o ComParte e a Forandringsfabrikken “são parceiros metodológicos há cerca de dez anos”, lembrando que, “no início da concepção do projeto ComParte”, tiveram contato com a Forandringsfabrikken, que compartilhou algumas premissas de sua metodologia que influenciaram no desenvolvimento e consolidação da metodologia do ComParte.

“Desde então, ambas as entidades têm realizado atividades semelhantes com jovens, utilizando também metodologias com componentes semelhantes, e ao longo do tempo, se mantiveram em contato de forma informal para se atualizarem sobre seus projetos”, destacou Ísis Capucha.

“No ano de 2024, surgiu a oportunidade de apresentar uma candidatura para financiamento europeu em parceria, onde a Forandringsfabrikken – organizadora do projeto – buscava uma entidade similar para se juntar, e desafiou o ComParte. Este aceitou o desafio, a candidatura foi aprovada, dando origem assim à primeira colaboração formal entre ComParte e Forandringsfabrikken”.

Com base neste projeto, foram coletados diversos depoimentos de alunos a fim de entender como professores e escolas podem aprimorar o bem-estar, a confiança e a segurança dos jovens em diversas situações de aprendizado.

Ísis Capucha mencionou que, em Portugal, “este projeto foi realizado em cinco Agrupamentos de Escolas, nas regiões de Tomar, Bobadela, Poceirão, Alvalade e Amora”.

“As experiências dos alunos são variadas, e coletamos depoimentos positivos – sobre fatores e comportamentos que ajudam os alunos a se sentirem seguros, confiantes e a aprender de maneira eficaz – e negativos em relação a estes aspectos”, continuou, ressaltando que, através deste processo, perceberam “que já existem boas práticas nas escolas, bem como nas interações entre jovens e adultos”.

No entanto, alertou que “ainda há muito a ser feito para garantir que os alunos se sintam seguros na escola, na sala de aula e em seus processos de aprendizagem”.

Karoline Normandbo, conselheira da Forandringsfabrikken, comentou que “os alunos noruegueses ofereceram conselhos muito específicos sobre o que torna a aprendizagem segura no cotidiano escolar. Muitos enfatizaram a importância de se sentirem seguros com os professores, de serem ouvidos, de colaborarem e de não serem expostos diante da turma”.

Por exemplo, “os alunos descreveram um professor seguro como alguém que demonstra envolvimento e cuidado, se expressa de forma gentil, mantém a calma e busca entender os alunos, em vez de ser excessivamente rígido ou de gritar. Ressaltaram que sentir-se reconhecido e levado a sério pelo professor é fundamental para se sentirem suficientemente seguros para participar nas aulas”, ou “explicaram que os estudantes aprendem de maneiras diversas e, portanto, preferem diferentes métodos de avaliação, como trabalhos em grupo, diálogos com o professor, vídeos ou tarefas escritas”.

“De maneira geral, os depoimentos mostraram que os alunos encaram a segurança como algo profundamente ligado às práticas cotidianas de ensino e ao comportamento dos adultos em sala de aula”, destacou Karoline Normandbo.

Diferenças entre Portugal e Noruega

Para Ísis Capucha, “as principais diferenças” entre os dois países “são de natureza contextual e estão relacionadas a componentes culturais e ao próprio funcionamento do sistema educacional em cada país”.

“Em ambos os países, os alunos relatam a importância da confiança e da empatia, de poderem participar nas decisões sobre seu processo de ensino e avaliação, além de como é essencial sentirem-se ouvidos, valorizados e respeitados por colegas e professores para se sentirem seguros”, afirmou a gestora do ComParte.

O ComParte também destacou que foi coletado “conhecimentos específicos advindos de alunos migrantes, sobre sua integração na escola e sobre como isso impacta na segurança que sentem em sala de aula”, ao contrário da Noruega, onde a presença de alunos migrantes não é tão significativa.

Por sua vez, Karoline Normandbo destacou que “uma das conclusões mais marcantes foi a semelhança nos conselhos oferecidos pelos alunos em ambos os países”.

“Tanto na Noruega quanto em Portugal, os alunos salienta a importância da colaboração na escolha dos métodos de aprendizagem e avaliação, da existência de boas relações com professores e colegas, e da necessidade de se sentirem seguros para fazer perguntas e não temerem errar”, afirmou, assim como Ísis Capucha.

A conselheira da Forandringsfabrikken ressaltou que, por exemplo, “os alunos portugueses frequentemente mencionaram o estresse associado aos testes escritos e à língua, especialmente entre aqueles que não dominam o português fluentemente”.

Enquanto isso, “os alunos noruegueses também discutiram a avaliação, mas com um foco maior na diversidade de métodos de aprendizagem e formatos de avaliação”.

“No geral, as semelhanças foram muito mais significativas do que as diferenças. As orientações dos alunos revelam necessidades comuns de segurança, respeito e inclusão que transcendem as fronteiras nacionais, indicando que as opiniões dos alunos sobre aprendizagem segura são altamente pertinentes além de um único país”, enfatizou Karoline.

Aplicação das Ferramentas Práticas Desenvolvidas

Atualmente, já está disponível o site do projeto, permitindo que qualquer pessoa “tenha acesso aos recursos e ferramentas resultantes do Aprender com Segurança”. Elas são destinadas a todos, mas com um “foco especial nos professores” em todo o país e na Europa.

“Esperamos que estas ferramentas possam ajudar a transformar práticas cotidianas em sala de aula e que, a longo prazo, buscando um uso mais abrangente delas, possam impactar significativamente a vida das escolas e dos alunos. Quem sabe, no futuro, algumas dessas ferramentas possam se tornar recomendações de órgãos políticos para as escolas, como algo concreto que podem implementar para reestruturar a educação”, disse Ísis Capucha.

Essas ferramentas, cabe ressaltar, “foram criadas para serem usadas em conjunto com os alunos, diretamente na sala de aula”.

“As ferramentas são organizadas em torno de quatro temas: sentir-se seguro na sala de aula, colaboração com os alunos, trabalho em grupo e redução do barulho de forma segura. Os professores podem utilizar essas ferramentas e orientações para dialogar com os alunos sobre como desejam trabalhar juntos, como no planejamento de atividades em grupo, apresentações, métodos de avaliação ou atividades para se conhecerem melhor na turma”, explicou Karoline.

Mas o que significa isso na prática? “Significa que os professores utilizam as ferramentas como atividades concretas, exercícios rápidos ou discussões no ambiente da sala de aula. O objetivo não é introduzir um programa rígido, mas sim apoiar mudanças práticas no ensino do dia a dia que ajudem os alunos a se sentirem mais seguros, incluídos e aptos a participar”.

Karoline Normandbo também apontou que, “uma vez que as ferramentas são baseadas diretamente nos conselhos dos próprios alunos, ajudam os professores a entender o que é percebido como seguro do ponto de vista dos alunos e a empregar esse conhecimento, em colaboração com a turma, para encontrar soluções que funcionem para aquele grupo específico”.

Desafios

Quanto aos potenciais desafios para a implementação dessas ferramentas em Portugal, Ísis Capucha apontou que “já existem boas práticas nas escolas e um grande esforço por parte dos professores para serem cada vez mais cuidadosos e criativos em suas aulas”.

No entanto, não descartou a possibilidade de que surjam “desafios na aplicação” dessas ferramentas, principalmente “em relação ao tempo e à organização curricular”, considerando que “algumas ferramentas exigem períodos de aula que nem sempre estão disponíveis, devido ao currículo das disciplinas”.

E mais? “Tempo para que o professor possa se aprofundar em todas as ferramentas do projeto e integrá-las estrategicamente nas suas aulas” ou até uma “cultura escolar menos flexível”, uma vez que “algumas das ferramentas contemplam dinâmicas mais informais e lúdicas, que podem não ser bem recebidas em escolas com uma cultura mais tradicional ou por professores que possuem menos disponibilidade para implementar ações que vão além das disciplinas e conteúdos programáticos”.

Por fim, existe o “desafio da disseminação”, pois “sem apoio em termos de políticas públicas e sem uma aplicação ampla, contínua e sistemática dessas ferramentas na rede escolar, os recursos resultantes do Aprender com Segurança podem ser vistos como algo ‘extra’ e utilizados apenas de forma esporádica e por poucas pessoas”.

Por outro lado, para Karoline Normandbo, “um dos principais desafios é o fato de que os professores já enfrentam uma carga de trabalho elevada e dispõem de pouco tempo”, e, portanto, “novas ferramentas podem ser encaradas como exigentes se forem percebidas como algo adicional às responsabilidades existentes”.

<p"Assim, "o recurso online foi projetado para ser prático, flexível e de fácil integração no ensino cotidiano. As ferramentas não requerem preparação adicional nem formação especializada e podem ser utilizadas em sessões curtas, junto aos alunos, no contexto das aulas regulares".

Na perspectiva da conselheira da Forandringsfabrikken, “o impacto potencial é extremamente significativo”.

“Quando os professores passam a entender melhor como os alunos experienciam segurança e inclusão, isso pode resultar em salas de aula mais tranquilas, em relações mais sólidas entre professores e alunos e em uma diminuição no número de alunos que se sentem excluídos. A médio e longo prazo, isso pode melhorar as condições de aprendizagem e contribuir para a redução das dificuldades de aprendizagem, do absenteísmo escolar e do abandono escolar precoce”, ressaltou.

Conclusões

A representante do ComParte observou que a “maior conclusão após o processo de escuta nas cinco escolas” é que “os próprios alunos são as melhores pessoas para identificar o que significa ‘sentir-se seguro’, conseguem reconhecer o que faz a diferença e têm o conhecimento que pode ser traduzido em práticas, ferramentas ou até mesmo em políticas públicas”.

“Em geral, a maioria das contribuições dos alunos sobre o que significa ‘sentir-se seguro’ está relacionada com experiências de confiança, inclusão, oportunidades de participação e relações de qualidade com professores e colegas”, enfatizou.

“Sentir-se seguro em sala de aula pode traduzir-se em aspectos tão simples como: Fazer perguntas sem medo de parecer ‘estúpido’, ter professores que reconhecem a individualidade de cada aluno, ser quem somos e ter a opção de escolher como preferimos ser avaliados”, entre outros.

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