Chat Control aprovado: mesmo com a maioria contra, a lei foi aprovada e todos ficamos mais pobres

Chat Control aprovado: mesmo com a maioria contra, a lei foi aprovada e todos ficamos mais pobres

Hoje, não há uma maneira agradável de iniciar. Na manhã de 9 de julho de 2026, o Parlamento Europeu aprovou o Chat Control 1.0, um regime que permite a análise em massa e sem suspeita das comunicações privadas, mesmo após ter sido rejeitado duas vezes em março. A vigilância indiscriminada das nossas mensagens agora tem um respaldo legal na União Europeia, e assim permanecerá até 2028, ou até que um acordo sobre o regulamento permanente seja alcançado.

Prestem atenção aos números, pois eles revelam a verdadeira narrativa do dia: 314 deputados votaram contra, 276 a favor e 17 se abstiveram. A maioria dos eurodeputados que participaram da votação se opôs à lei. E, ainda assim, a lei foi aprovada.

Não é um erro de digitação. É o resultado de uma manobra processual que descrevi em artigos anteriores, realizada exatamente como seus idealizadores planejaram. Em uma segunda leitura, a posição do Conselho é considerada automaticamente aprovada, a menos que uma maioria absoluta de todos os membros do Parlamento, ou seja, 361 votos, a rejeite. Não se trata dos presentes: todos os 720. A votação foi agendada para o último dia antes das férias de verão, quando as salas estão parcialmente vazias, e a matemática fez o restante. Faltaram 47 votos para barrar. As cadeiras vazias decidiram.

Houve também uma segunda humilhação, mais sutil. Uma maioria dos votantes, 322 contra 255, desejou limitar a análise de comunicações privadas estritamente aos suspeitos identificados “pela justiça”. Era a posição sensata que o Parlamento havia aprovado em março com 458 votos. Essa emenda também fracassou ao não alcançar os 361. Apenas uma exceção para comunicações encriptadas ponto a ponto foi aprovada, que, para ser honesto, é meramente decorativa, pois os provedores nunca conseguiram analisar essas comunicações devido a limitações técnicas.

Patrick Breyer, o ex-eurodeputado que há anos lidera essa causa, resumiu o dia em uma palavra: farsa. Uma lei que avança contra a vontade da maioria dos votantes compromete a democracia, e os verdadeiros perdedores, segundo ele, são as crianças. Iremos discutir por quê, pois essa parte os telejornais não vão explicar.

Caminho até aqui, em sessenta segundos

Para quem se junta ao trem em movimento, aqui está uma cronologia resumida dos últimos dez meses:

  • Outubro de 2025: a versão mais rigorosa do Chat Control 2.0, que exigia varredura obrigatória, foi descartada no Conselho graças a uma minoria de bloqueio liderada pela Alemanha.
  • Março de 2026: o Parlamento aprova, por 458 a 103, uma extensão do regime temporário que permite a detecção apenas dirigida a suspeitos, e com autorização judicial. O Conselho rejeita. Em 26 de março, o Parlamento também rejeita qualquer extensão, com 311 a 228 votos.
  • 3 de abril: a derrogação expira. Pela primeira vez em cinco anos, a varredura indiscriminada não tem respaldo legal. Google, Meta, Microsoft e Snap anunciam que continuarão com suas práticas habituais.
  • Junho: o PPE solicita à presidente Metsola que reative o dossiê. Em 2 de julho, o Conselho reembala o texto que foi rejeitado em um novo veículo legislativo e o envia para segunda leitura, um processo que inverte o ônus da votação.
  • 7 de julho: o plenário aprova a urgência com 331 a 303.
  • 9 de julho: 314 contra, 276 a favor. Insuficiente. A lei é aprovada.

Três votações plenárias sobre o mesmo tema em quatro meses, até se chegar ao resultado desejado. Mantenham esse precedente em mente, pois ele será utilizado novamente. Se teve sucesso uma vez, por que não poderia funcionar outras vezes?

Mudanças práticas a partir de agora

É importante esclarecer o que esta lei faz e o que não faz, uma vez que as narrativas de ambos os lados tendem a exagerar.

O que retorna: as empresas de tecnologia, especialmente as americanas, estão novamente autorizadas a analisar mensagens privadas sem um mandado judicial e sem qualquer suspeita anterior. Isso inclui mensagens diretas do Instagram, Discord, Snapchat, Skype e Xbox, além de emails do Gmail e do iCloud. Cada foto que você envia ao pediatra, cada desabafo para um amigo, cada mensagem ao seu advogado nessas plataformas é analisada por algoritmos que decidam se devem ser encaminhadas para uma revisão humana e, possivelmente, para as autoridades.

O que não muda: publicações em redes sociais e arquivos na nuvem já podiam ser analisados sem esta lei em vigor. Denúncias feitas por usuários ainda são válidas. As autoridades sempre puderam e continuam potentes a interceptar comunicações de suspeitos específicos com ordem judicial. Nenhuma dessas ferramentas, que geram resultados reais, esteve em risco.

O que continua fora de alcance: as conversas com encriptação ponta a ponta, como no WhatsApp e no Signal, nunca foram alvo dessas análises e continuam fora do escopo. Além disso, provedores europeus de email e mensagens nunca implementaram o controle de chat.

Agora você compreende a dimensão da fraude retórica? Durante três meses, nos disseram que havia um “vazio de proteção” dramático desde abril. O que estava suspenso era exclusivamente a leitura indiscriminada e não mandatada de mensagens privadas de pessoas inocentes em várias plataformas americanas. Tudo o que funciona nunca parou.

Isso é o que mais me irrita, e é a posição concordada por Breyer, que compartilho por completo: esta lei não falha apenas conosco, os adultos que perdem privacidade. Ela falha com as crianças que promete proteger. Os números vêm dos próprios documentos oficiais da Comissão e da polícia criminal alemã, não de panfletos ativistas:

  • O volume de denúncias de suspeitas de abuso vindas dos EUA caiu 50% desde 2022 devido à crescente adoção da encriptação. O modelo de varredura já estava se esvaziando sozinho.
  • Em 2024, a varredura em massa de comunicações privadas representou apenas 36% das denúncias de abuso. A maior parte proveniente de publicações públicas e da nuvem, canais que nunca necessitaram desta lei.
  • A polícia criminal federal da Alemanha (BKA) relata que 48% dos alertas recebidos não têm relevância criminal. Quase metade do trabalho resulta em lixo algorítmico.
  • Em torno de 40% das investigações abertas a partir desses alertas envolvem… menores. Adolescentes trocando fotos entre si, sendo transformados em suspeitos por uma máquina.
  • Estimativas indicam que 99% das denúncias geradas pela Meta referem-se a material já conhecido, o que raramente colabora para deter abusos ativos.
  • E a cereja do bolo: a própria Comissão Europeia admite não haver evidências de que a varredura sem suspeita tenha aumentado o número de condenações ou de crianças resgatadas.

Cinco anos disso. Cinco anos com um sistema que sobrecarrega a polícia com alarmes falsos, criminaliza adolescentes e não gera resultados mensuráveis, mantido ativo por ser uma cortina de fumaça que adia medidas que realmente funcionam: remoção sistemática do material conhecido na fonte, ação policial proativa, aplicativos seguros por design e apoio às vítimas. Breyer tem uma frase que não consigo evitar citar: “é como esfregar o chão freneticamente com a torneira aberta.”

Vozes que deveriam ter sido ouvidas

Se há algo que este debate possui de obsceno é a maneira como os proponentes da lei falam “em nome das vítimas”, ignorando as reais que se opõem a isso.

Alexander Hanff, sobrevivente de abuso sexual na infância e ativista da privacidade, relatou publicamente que foi a confidencialidade das comunicações que lhe possibilitou contar sua história e obter justiça para 28 meninos de sua escola, cujos agressores foram condenados. Sua posição é clara: os sobreviventes precisam de privacidade, pois sem ela perdem sua voz. E ele denuncia: o Chat Control nunca foi concebido para proteger crianças, mas para atender ao apetite por dados das grandes empresas de tecnologia e à expansão da vigilância estatal, enquanto milhões de sobreviventes continuam sem qualquer suporte.

Outro sobrevivente, que está processando a Meta exatamente por causa da varredura voluntária de suas conversas, afirma que aqueles que lamentam o fim do Chat Control não compreendem quais são as verdadeiras ajudas para as vítimas: apagar material na origem, uma polícia ativa na darknet e aplicativos seguros por design. A MOGiS, uma associação alemã de sobreviventes, alerta que a vigilância em massa destrói os espaços seguros de comunicação essenciais para as próprias vítimas, muitas vezes vitais.

Essas pessoas sabem do que falam de maneiras que nenhum de nós gostaria de saber. Foram ignoradas.

O impacto democrático ressoará

Gostaria de ressaltar esse ponto, pois ele vai além da privacidade digital.

O Parlamento Europeu reprovou esta lei. Duas vezes, com maiorias bem definidas. A resposta institucional foi reembalar o texto, adotar um procedimento em que a rejeição exige uma supermaioria e agendar a votação para quando metade das cadeiras estava vazia. Hoje, uma lei entrou em vigor na União Europeia contra a vontade expressa da maioria dos deputados que votaram. Os eurodeputados dos Verdes a chamaram de um ataque à essência da democracia, e dessa vez a hipérbole parlamentar é literal.

Para os leitores mais jovens, repito o que já disse antes: perguntem a seus pais e avós como era viver em um país onde correspondências eram abertas por padrão. Nós fomos esse país há meio século. A diferença é que, na época, a PIDE precisava de vapor para abrir envelopes, e isso agora acontece em data centers a custo quase zero. A tecnologia mudou. A natureza do poder, não. E precedentes processuais, uma vez estabelecidos, não podem ser desfeitos.

Ainda há esperança

Escrever textos sobre derrotas é difícil para mim, e este não será um deles, pois a luta não acabou. O que foi aprovado hoje foi o regime temporário. O Chat Control 2.0, o regulamento permanente que definirá as regras para as próximas décadas, continua em negociação, e as discussões recomeçam em setembro. A questão central permanece: varredura indiscriminada de todos, como desejam os governos, ou detecção direcionada a suspeitos com autorização judicial, como exige o Parlamento?

E há uma informação realmente encorajadora no infortúnio de hoje: 314 votos contra, em um dia escolhido para desmobilizar a resistência, é uma demonstração de força. O próprio Breyer, embora derrotado na batalha, considera que a resistência no Parlamento torna a ideia de conseguir uma maioria para varredura permanente e sem suspeita uma fantasia. O paradoxo perverso, e esse é o alerta central dele, é que cada extensão do regime temporário diminui o incentivo dos governos para negociar a sério: enquanto puderem prolongar o status quo confortável com manobras processuais, por que ceder?

Então, o que podemos fazer concretamente:

  1. Exijam responsabilidade de seus representantes. A lista nominal da votação de hoje está disponível no site do Parlamento Europeu. Verifiquem como votou cada um dos 21 eurodeputados portugueses, e, especialmente, quem sequer estava presente. Uma ausência hoje foi um voto a favor da vigilância. Escrevam para eles. Lembrem que 2029 está se aproximando.
  2. Apresentem queixas. Se utilizam Gmail, Outlook, Messenger ou Snapchat, suas mensagens voltarão a ser analisadas sem qualquer suspeita. Entre abril e julho, essa varredura ocorreu sem respaldo legal, e qualquer cidadão pode apresentar queixa à CNPD por violação do sigilo das comunicações. Um sobrevivente alemão está processando a Meta por isso. Queixas individuais podem parecer gotas no oceano, mas ações judiciais que surgem delas já mudaram leis europeias.
  3. Mudança de plataforma digital. A exceção para encriptação ponta a ponta, embora simbólica, indica o caminho: Signal para o cotidiano, Matrix/Element auto-hospedado para quem possui essa habilidade, XMPP com OMEMO, ou provedores europeus de email (Proton, Tuta) que nunca realizaram varredura e não o farão. Cada usuário que migra retira valor da infraestrutura de vigilância. Em 2022, as denúncias geradas pela varredura caíram para metade precisamente porque as pessoas migraram para a encriptação. A adoção, por si só, é um ato político.
  4. Ofereçam suporte a quem luta. A D3 (Defesa dos Direitos Digitais) aqui dentro, a EDRi e o trabalho incessante de Patrick Breyer lá fora. Essas organizações dependem de doações e voluntários e serão necessárias em setembro.
  5. Não se afastem. A manobra de hoje funcionou porque contava com nossa distração típica do período de férias. A antidoto é não permitir que a gente esqueça até a próxima rodada.

Considerações Finais

Em agosto de 2025, chamei o Chat Control de um cavalo de Troia. Enganei-me na interpretação mitológica: os troianos, ao menos, traziam o cavalo para dentro das muralhas por vontade própria. Nós fomos forçados a aceitar o cavalo, mesmo após termos dito que não. Duas vezes.

Hoje, todos nós saímos mais empobrecidos. Mais pobres em privacidade, evidentemente. Mais pobres em segurança, pois a normalização da inspeção de comunicações privadas de inocentes compromete a infraestrutura da qual todos dependemos. E mais pobres em democracia, a perda que menos se percebe e que é mais difícil de recuperar: aprendemos que um voto do Parlamento Europeu não tem valor quando se trata de incomodar quem está no poder.

Mas atenção: 314 pessoas estiveram do lado certo, em um dia estrategicamente escolhido para que estivessem ausentes. Em setembro, a batalha pelo regulamento permanente recomeça, essa sim, decisiva. Descansem em agosto. Em setembro, estaremos prontos.

Recursos Úteis:

Compartilhem este artigo. Hoje perdemos uma votação; a memória do que aqui se fez, e de quem o fez, é a única coisa que ninguém pode retirar de nós.

(*) CTO da Findmore – blog: https://blog.nuneshiggs.com

Disclaimer: Este post foi escrito com o suporte de um LLM privado.

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