Um dos herbicidas mais populares do mundo pode estar alimentando supergermes mortais
A resistência antimicrobiana (RAM) está associada a aproximadamente 1,1 a 1,4 milhões de mortes anualmente no mundo. Embora essa crescente ameaça seja normalmente atribuída ao uso excessivo e inadequado de antibióticos, pesquisas recentes sugerem que um outro fator também pode estar contribuindo: certos herbicidas.
Cientistas descobriram evidências de que o glifosato, um dos herbicidas mais utilizados globalmente, pode auxiliar na seleção de bactérias resistentes a múltiplos antibióticos.
“Aqui mostramos que as espécies de bactérias multirresistentes mais comuns em hospitais são não apenas resistentes a várias classes de antibióticos, mas também a altas concentrações do herbicida glifosato,” afirmou a Dra. Daniela Centrón, pesquisadora do Instituto de Microbiologia Médica e Parasitologia em Buenos Aires e autora sênior do estudo publicado na Frontiers in Microbiology.
“Esses resultados sugerem que os herbicidas – que, diferentemente dos antibióticos, são amplamente aplicados em ambientes agrícolas – podem ter o efeito colateral não intencional de selecionar por RAM entre as comunidades bacterianas no solo.”
Durante décadas, o Roundup foi estreitamente associado ao glifosato, o herbicida que foi registrado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1974. Hoje, a situação é mais complexa. Produtos de Roundup para uso doméstico encontrados em muitas lojas de ferramentas e jardinagem foram reformulados sem glifosato e podem conter ingredientes como triclopyr, fluazifop e diquat. No entanto, o glifosato ainda é utilizado em produtos profissionais e agrícolas do Roundup, empregados em fazendas, paisagismo e outros contextos comerciais.
Analisando Bactérias de Ambientes Naturais, Fazendas e Hospitais
Para investigar a conexão, Centrón e sua equipe analisaram 68 cepas bacterianas coletadas em 2018 e 2020 de sedimentos em uma reserva natural protegida no delta do Paraná, uma região de pântano ao norte de Buenos Aires. Embora herbicidas nunca tenham sido aplicados dentro da reserva, o glifosato é comumente utilizado nas áreas agrícolas próximas.
Os pesquisadores examinaram a resistência de cada cepa a 16 antibióticos de uso frequente, incluindo ampicilina combinada com sulbactam, meropenem, tetraciclina e vancomicina. Eles também testaram a resistência ao glifosato puro e a herbicidas a base de glifosato, que estão entre os herbicidas mais amplamente usados no mundo.
Os achados foram então comparados com 19 cepas bacterianas obtidas de hospitais locais, incluindo espécies multirresistentes. Adicionalmente, 15 cepas foram coletadas de confinamentos de gado e solos agrícolas afetados pelo uso de herbicidas.
Bactérias Multirresistentes em Hospitais Também Resistentes ao Glifosato
As cepas de hospitais apresentaram ampla resistência antimicrobiana. Cepas individuais eram resistentes a entre um e 16 dos antibióticos testados. O que se destacou foi a descoberta de que 74% eram resistentes a carbapenemas, uma classe de antibióticos de amplo espectro frequentemente reservados como última linha de defesa contra infecções graves.
Todas as cepas derivadas de hospitais também mostraram alta resistência ao glifosato e a herbicidas a base de glifosato.
“Isso significa que, se essas bactérias entrarem no meio ambiente por meio de águas residuais não tratadas de hospitais, elas podem prosperar em áreas agrícolas onde o glifosato é utilizado,” afirmou a primeira autora Dra. Camila Knecht, do grupo de pesquisa da Dra. Centrón.
As 68 cepas coletadas do delta do Paraná representavam 15 gêneros diferentes, incluindo Acinetobacter, Pseudomonas, Exiguobacterium e Chryseobacterium. Cada uma delas apresentou algum nível de resistência ao glifosato e aos herbicidas a base de glifosato, apesar de esses produtos químicos nunca terem sido aplicados dentro da reserva em si.
Entre as cepas ambientais, as espécies de Enterobacter toleraram as concentrações mais altas de glifosato, sobrevivendo em níveis de até 80 miligramas por mililitro. Por outro lado, as espécies de Bacillus, que são comuns no solo, mostraram-se especialmente sensíveis. Seu crescimento foi inibido em concentrações tão baixas quanto 2,5 miligramas por mililitro. Alta resistência ao glifosato também foi observada em cepas isoladas de infecções hospitalares que demonstraram extrema resistência a medicamentos.
Bactérias Resistentes Compartilham Semelhanças Genéticas
Os pesquisadores montaram então uma “árvore genealógica” utilizando todas as 102 cepas bacterianas incluídas no estudo. Descobriram que as bactérias com maior resistência ao glifosato estavam frequentemente relacionadas entre si, independentemente de sua origem, sejam hospitais, fazendas ou o delta do Paraná.
Por exemplo, o mesmo gênero bacteriano mostrou resistência ao glifosato em todos os três ambientes.
“No ambiente, o uso de glifosato leva à evolução de bactérias resistentes nos solos impactados, enquanto o uso de antibióticos favorece sua evolução em hospitais. Bactérias portadoras de genes de resistência a antibióticos podem se espalhar e se reproduzir entre esses dois nichos de várias formas, com o ciclo da água desempenhando um papel fundamental na transmissão,” concluiu o coautor Dr. Jochen A Müller, líder de grupo no Instituto de Tecnologia de Karlsruhe.
Preocupações sobre o Glifosato e Saúde Pública
O glifosato tem sido alvo de debates científicos e regulatórios há muito tempo. Pesquisas demonstraram que ele pode prejudicar artrópodes (principalmente abelhas), e a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer o classifica como um provável carcinógeno humano.
Vários países europeus já impuseram restrições a alguns usos do herbicida. França, Bélgica e Países Baixos baniram o glifosato para aplicações domésticas, enquanto a Alemanha atualmente proíbe seu uso em espaços públicos.
Com base nas descobertas, os pesquisadores defendem que as regulamentações sobre pesticidas devem considerar a resistência a antibióticos antes que os produtos cheguem ao mercado.
“As políticas para uso de qualquer pesticida, assim como seus metabolitos, devem exigir testes de co-seleção com antibióticos antes da comercialização. Os rótulos devem incluir um aviso de que genes para resistência a antibióticos podem se espalhar de solos contaminados com glifosato para hospitais através de água não tratada,” aconselhou Centrón.
